Tribuna Expresso

Perfil

Expresso
Duarte Gomes

Duarte Gomes

ex-árbitro de futebol

As faltas: o fator de maior peso nas paragens nos encontros da I Liga - e do seu pouco tempo útil de jogo

O antigo árbitro internacional Duarte Gomes faz tombar alguns mitos, mas lembra que na primeira divisão portuguesa apita-se muito e o jogo está demasiadas vezes parado. A culpa não é só dos árbitros

Duarte Gomes

Gualter Fatia

Partilhar

Dados recentes do Observatório do Futebol (sobre tempo útil de jogo) voltaram a fazer soar os alarmes daqueles que, por cá, gostam do chamado futebol-espetáculo.

Apesar dos números apresentados serem preocupantes, a verdade é que também são importantes no sentido de desmontarem outros mitos. Um dos maiores exemplos disso é o que acontece, por exemplo, na Premier League.

Considerada por muitos como a grande referência do jogo jogado, a primeira liga inglesa surge apenas no 5° lugar dos campeonatos com mais tempo útil.

À sua frente estão as ligas dos Países Baixos, Suécia, Rússia e até Israel.

Em Inglaterra o tempo útil de jogo é superior ao nosso, a bola rola mais e há menos paragens, mas convém ter noção que a diferença entre um e outro não é assim tão gritante. E se compararmos o nosso campeonato aos que compõem os "Big 5", é ainda menor.

Este pequeno consolo não pode, no entanto, deixar-nos confortáveis. As coisas estão longe de estarem bem. Aliás, não estão. Temos todos obrigação de exigir mais, de querer melhor.

Um dado relevante que resulta daquele estudo é o de que, na nossa liga, as faltas são o fator de maior peso nas paragens. São muitas, demasiadas até se as compararmos com as que ocorrem em muitos outros campeonatos na Europa.

Para que se tenha uma ideia, na época de 2020/21 e já nesta (21/22), catorze dos vinte jogos com mais faltas assinaladas aconteceram na liga portuguesa. Nos piores trinta foram dezanove.

O número de infrações num jogo depende, primeiro, das arbitragens e isso é claro.

É o árbitro que tem o apito, logo é ele que tem o poder de o usar com maior ou menos frequência, mas convenhamos: é muito fácil exigir-lhes firmeza e amplitude de análise nos contactos. Pior é aceitar um golo na nossa baliza, depois de um toque que o nosso defesa sofreu. Certo?

Serve isto para vos dizer que as faltas dependem do contributo ativo não de um, mas de todos os agentes desportivos.

Os árbitros têm sim, um papel determinante nesta matéria. Devem ser menos defensivos e arriscar mais, com coerência e critério. Mas também os jogadores devem focar apenas no seu trabalho, evitando quedas forçadas, protestos constantes, simulações grosseiras e conflitos por tudo e por nada. E os treinadores ajudariam muito se tentassem não recorrer a táticas antidesportivas ou se, pelo menos, impedissem os seus atletas de fazerem antijogo excessivo. E que dizer do IFAB, que ainda pode fazer muito mais é melhor em matéria de alteração às leis, introduzindo sem receios regras claramente dinamizadoras?

Por aí a coisa melhorava, mas toda esta realidade deve ser olhada de forma menos romântica e ainda mais profunda:

- Em Portugal despedem-se profissionais com demasiada facilidade. Os treinadores vivem a prazo, dependem de resultados e se não ganham três ou quatro jogos seguidos, sentem o seu lugar em risco. Há sobre eles demasiada pressão. Muitas vezes, o recurso a expedientes menos bonitos não é uma opção, mas uma questão de sobrevivência.

Além disso, há ainda a questão das diferenças de orçamento entre uns e outros: há os poucos que têm muito e os muitos que têm pouco. Ora isso reflete-se na sua atitude em campo, na forma como alguns procuram evitar a derrota ou preservar o ponto precioso, muitas vezes determinante na manutenção da equipa e obtenção dos objetivos.

Este é, de facto, um tema muito interessante, que assenta muito da sua essência em premissas culturais e até económicas.

Pensar o contrário é usar de visão demasiado redutora na análise de um assunto bem maior.

A Liga Portugal está a promover um conjunto de ações com treinadores da suas competições, onde este tem sido tema bastante debatido. As conclusões estão a ser francas e elucidativas, mas há um dado em comum que não pode ser descurado: todos reconhecem que seria fundamental ter, nestes fóruns, a presença de árbitros no ativo.

Não é possível pensar em respostas para um problema desta natureza sem o envolvimento e contributo de quem está em campo e é dono de um papel tão preponderante nesta matéria.

Aliás, a falta de interações regulares entre árbitros, jogadores e treinadores (neste e em tantos outros temas) é uma das causas maiores para tanta divergência e perturbação entre intervenientes desportivos.

Sem comunicação e sem diálogo, não há paz nem consensos.

Todos teriam a ganhar se tivessem a oportunidade de conversar. O esclarecimento e a proximidade institucional diluiriam muitas dúvidas e trariam mais clarificação, transparência e respeito mútuo.

Não se percebe como é que uma indústria tão desenvolvida e impactante como esta permite-se a não reunir regularmente os seus maiores ativos.

Vivemos na era da inteligência artificial e da realidade aumentada, mas nesta matéria ainda estamos onde estávamos há 40 ou 50 anos.

Alguém consegue perceber porquê?