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Ser assobiado pelos próprios adeptos? Futre e Acosta explicam: “Ninguém está preparado, por muito craque que seja e personalidade que tenha”

Depois de Lionel Messi e Neymar serem assobiados no primeiro jogo em casa do Paris Saint-Germain desde a eliminação na Liga dos Campeões, a Tribuna Expresso foi saber como se sente um craque neste cenário: em que se pensa? Como se combate? Paulo Futre, Beto Acosta e o psicólogo Jorge Silvério explicam

Hugo Tavares da Silva

Matias Nieto

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Quando chegou ao balneário, transportava dentro da carapaça o sangue que fervia mais do que os holofotes do Vicente Calderón que faziam as vezes do sol. Tirou uma das botas, habituadas a olhar o céu nos olhos, e atirou-a contra o espelho onde os companheiros faziam a barba, deixando os cacos, moribundos, espalhados pelo chão. Durante aqueles primeiros 45 minutos, os adeptos do Atlético de Madrid assobiaram-no sempre que tocava na bola. Futre já decidira não voltar ao relvado, mas o massagista, o melhor amigo que tinha por ali, suspirou-lhe algo nas orelhas do coração.

“Ele disse-me: ‘não faças por ti, não faças por mim, não faças pelos teus filhos, faz pelos meus filhos’. Pelos filhos dele, fui lá para dentro e fiz logo o golo”, conta à Tribuna Expresso. Era o golo que garantia a reviravolta no marcador frente ao Logronés, na jornada 36. Estávamos a 25 de abril de 1990 e Paulo Futre não jogava desde 4 de março. O português, protagonista de notícias sobre o seu “estado depressivo”, não gostou que o então presidente Gil y Gil despedisse o treinador Javier Clemente. “Estávamos a quatro ou cinco pontos [do líder] e mandou-o embora, comecei a guerra, tremenda, foi a mais dura. Eu dizia que não jogava mais no Atlético. Foi público, primeiras páginas de jornais, eu respondia, ele respondia, depois deu-me multas. Só voltei a jogar pelas multas que me dava”, esclarece.

Futre viveu então, naquela tarde em Madrid, o que Neymar e Lionel Messi sentiram no PSG-Bordéus, em Paris, onde ambos foram assobiados pelos adeptos da casa. O brasileiro, aliás, bateu um livre direto que, ao sair por cima, longe da glória desejada, mereceu aplausos das gentes do Parque dos Príncipes. Está rasgado o vínculo com a esperança. O projeto milionário, que parece só poder saciar-se caso a Liga dos Campeões seja conquistada, está agora num impasse ameaçador, após a eliminação daquele torneio, perante o Real Madrid.

“Fui assobiado na primeira parte e saí em ombros na segunda”, diz o lendário canhoto, vaidoso. “Ganhámos 3-1. O meu golo é espetacular, no ângulo, fora da área. Sei que o guarda-redes do Logronés era o [Luis] Islas, da seleção argentina, era um grande guarda-redes.”

A crónica do “El País” — intitulada “Futre devolve a alegria ao Calderón” — não o deixa mentir: “A hinchada acudiu ao Manzanarés disposta a linchar Futre, mas um golo precioso, quatro correrias maravilhosas e um par de pausas converteram os lobos em cordeiros. Dificilmente a bancada poderia odiá-lo. Ele é assim”, pode ler-se na prosa de Vicente Jiménez, que responsabilizou Futre pelos “assobios” terem sido convertidos em “loas” na “paroquia rojiblanca”.

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