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Expresso

Glória ao capitão Ucrânia, que joga no Benfica

O Benfica ganhou ao Vitória por 3-0, mas o mais importante aconteceu à hora de jogo, quando Roman Yaremchuk entrou em campo: Vertonghen correu para lhe dar a braçadeira de capitão, o Estádio da Luz engoliu-o num aplauso e o ucraniano encharcou os olhos para não se desfazer em emoção no relvado. Foi o combate possível de um jogo de futebol contra a desumanidade de uma guerra

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O que guardará o olho azul engrandecido pelas órbitas redondas, ele ali sentado, confortável, parece focar a bancada do outro lado, quiçá fitasse um retângulo com azul deitado sobre o amarelo, talvez a mente estivesse a navegar na divagação de como estarão os seus na terra que é sua, o que será de todos os que conhece?, porventura fosse isso a esconder-se na mirada de Yaremchuk, também acredito que as braçadeiras postas por quem joga à bola com o ucraniano a diário lhe tenham chamado a atenção.

Uma vez, a “New Yorker” fez um vídeo com um reformado carteirista feito orador, um ex-malandro convertido ao lado bom da força que se dedicara a dar palestras sobre como a atenção das pessoas é manipulável, explicando-o com uma analogia: as nossas mentes funcionam como o foco de luz de uma lanterna em quarto escuro. É facílimo não repararmos no que está na periferia e deduzo que prioridade de Yaremchuk estivesse longíssimo do jogo a acontecer nas suas barbas.

Ele viu como Estupiñán dirigiu os sprints ao espaço no costado de Morato, o central lento a ajustar a posição como a restante linha defensiva que integra, pachorrenta a lidar com as perdas de bola da equipa e a permitir que o colombiano puxe Vlachodimos para fora da baliza. O grego fez-se na direção do avançado e bloqueou-lhe dois remates, aos 7’ e aos 14’, a flagrância bipolar do Vitória a vulnerabilidade do Benfica quando o adversário acaba de recuperar a posse. Os poucos passes que o Vitória precisa para o deixar na cara do guarda-redes expõe méritos de uns e falhas dos outros.

Porque o jogo assim-assim, muitas vezes feito ao ralenti, com duas equipas que reagem tarde aos toques para reagrupar e divergem no pior que os de Guimarães são a fazê-lo. A lentidão com que são atraídos para o centro do campo, com os laterais sempre seduzidos pelos extremos do Benfica que se colocam na sua frente, culmina com a equipa a ser desfeita com um simples passe longo de Meïté para a corrida de Gilberto nas costas de Rafa Soares, à direita, um simples truque que teve sucesso duas vezes.

O brasileiro cruzaria, primeiro, para Gonçalo Ramos se antecipar a um central e rematar o 1-0, aos 23’, depois para Darwin aproveitar os segundos de solidão na área, sem necessidade de ludibriar marcações, cabeceando o 2-0, aos 37’, e feita está a cronometragem do perigo gerado pelo Benfica. A única outra jogada em que fabrica algo de remotamente ameaçador, logo aos 4’, também tivera Gilberto a servir de parede para uma tabela com Taarabt. 

Foto: Zed Jameson/MB Media/Getty Images

Foto: Zed Jameson/MB Media/Getty Images

Fabricações como essa — jogadores a trocarem passes curtes e a movimentarem-se enquanto a bola não chegava, tentando uma jigajoga com os adversários — viram-se não muito, apesar de se notar a intenção de usar Ramos ou Darwin como paredes, indo a eles os passes para deixarem algum médio ou extremo de frente para o jogo com um toque na bola. O Vitória tentava-as mais vezes, mas traído pela própria porosidade em cada momento de defender a sua baliza.

O raiar da segunda parte demonstrou-o, de caras, quando os vimaranenses usaram a bola de saída de toque em toque, a respeitar o jogador virado para a baliza, até André Almeida ajeitar para Alfa Semedo rematar à entrada da área; pouco depois, uma bola dividida com pés de estufa por Miguel Maga deixou Gonçalo Ramos entrar área dentro e ser parado com uma rasteira. O penálti de Darwin fez o 3-0, aos 52’, e Rafa falharia o quarto golo logo a seguir, ao ser inofensivo quando só faltava um desvio na pequena área.

E com o relógio a bater na hora, o futebol parou. O holofote de todas as cabeças virou-se para o corpo erguido do banco e passageiro de uma mente que estava longe do Estádio da Luz, lá dentro nunca poderia estar. Roman Yaremchuk aguardava pelo protocolar costume de placas, quartos árbitros, números a serem mostrados e já um coro se formava. Os crescentes aplausos eram para ele, o ucraniano que não precisa de estar na Ucrânia para também estar a ser invadido por uma guerra, daí a sua cara tão solene.

Quem saiu foi Darwin, mas quem correu para encontrar o avançado foi Vertonghen. Chegado à frente de Yaremchuk, despiu a braçadeira e deu-lha, o gesto pareceu surpresa e as palavras para o justificar eram desnecessárias, Roman apertou o seu braço com o simbolismo, correu campo dentro e a alvorada de um estádio barulhento, a tudo de si no aplauso, quase o desmoronou. A câmara focava agora num homem a apertar os lábios, com o azul dos olhos a encharcar-se, a tentar não ser desfeito pela emoção.

Ele entraria no transe do jogo, durante largos minutos e algumas fases de ataque os jogadores do Benfica procuraram-no. Tentaram cruzamentos para Yaremchuk quando podiam rematar, abrandaram quando deviam acelerar para verem onde ele estava, fizeram por servi-lo com o maior dos amuletos do futebol que, a partir da sua entrada, deixou de importar assim tanto. Ou mesmo nada. Nem os artifícios de Quaresma a receber bolas, a boniteza de um remate em arco de Bruno Duarte ou o corpo dado por Vlachodimos para que algum dos 16 remates do Vitória pudesse dar em golo.

O Benfica ganhou, passou a ver o 2.º lugar do Sporting a quatro pontos, mas venceu logo quando ainda restava meia hora para o jogo fechar a pestana. A atenção que todos dedicaram a quem ali mais sofre com uma das piores coisas de que os humanos são capazes. Haver, por causa de uma pessoa, milhares de outras a terem de pegar em armas e dispararem para matar, enquanto milhões fogem, se escondem, temem pela vida e são separadas das famílias, é do mais desumano que pode existir.

O pranto contido de Roman Yaremchuk, a tentar fechar a cara, depois de encher as bochechas e soprar o ar fora enquanto aplaudia as palmas que o embalaram, foi o combate possível de um jogo de futebol contra a desumanidade.