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Carlos Carvalhal tem “um gozo tremendo” em Braga: os jovens que está a lançar na terra “onde se preocupam com a estética”

Na época e meia que leva neste regresso ao ‘seu’ clube, o treinador lançou 12 jovens da formação, mais do que o Sporting, o FC Porto ou o Benfica fizeram no mesmo período. À Tribuna Expresso, admite que “podem não singrar todos” e a diferença estará entre “os que jogam futebol e entendem o jogo, e os que jogam à bola”, mas que é neste “lado mais puro e bonito” que, como qualquer treinador, tem a “capacidade de mudar vidas” no SC Braga

Diogo Pombo

Carlos Carvalhal regressou ao SC Braga no verão de 2020 (Foto: Diogo Cardoso/DeFodi Images via Getty Images)

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Eram 18 voltas ao sol feitas há dias, ele acabado de passar para o lado de lá da fronteira da adolescência e já com os pés de novato defesa central à beira de outra linha, prestes a ser cruzada, numa das laterais do relvado no “velhinho” Estádio 1.º de Maio. Brotado da mesma terra onde o clube se fertilizava, era um miúdo bracarense a viver o “lado mais puro do futebol” no SC Braga, em Braga. O “momento mágico” para toda a alma que se aventure na bola foi adornado mais ainda por uma das grandes figuras do futebol cá do burgo, que lhe entrou pelos ouvidos ao mesmo tempo que o lançava.

O Quinito sobre quem muito se historia em Portugal e há episódios-mil já contados disse-lhe para “jogar tranquilo” e “confiar” no seu valor, coisas que soam banais, a água a cair no molhado, mas não o serão. O primeiro dia do resto da vida de um jogador equivale a uma impressão digital cravada por um treinador, o responsável pela estreia fica para sempre porque “não há nada mais marcante do que a estreia no futebol profissional” e Carlos Carvalhal lembra-se de Quinito assegurar a um miúdo que “tinha a [sua] confiança”, para se divertir. Já revisitou este dia em dezembro de 1983 uma dúzia de vezes no último ano e meio.

É onde o treinador nos localiza o “lado mais puro e bonito” dos pontapés na bola, quando um catraio tem a oportunidade de conviver “com os jogadores de quem colecionava cromos” ou “estava habituado a ver na televisão”. Desde o verão de 2020, quando voltou a Braga para treinar o seu clube, Carlos Carvalhal deu os primeiros minutos na equipa principal a 12 jogadores da formação. “Sabemos que, enquanto treinadores, temos a capacidade de mudar muitas vidas e estamos a fazê-lo no SC Braga”, confessa o técnico cujo nome será lido no código de barras destes futebolistas como o de Quinito se lê na sua etiqueta.

Entre a época passada e o que se jogou desta, a equipa teve as estreias de Lukas Hornicek, Dinis Pinto, Guilherme Soares, Hernâni Infande, Gorby Baptiste, Rodrigo Gomes, Eduardo Schürrle, Francisco Moura, Roger, Vitinha, Bruno Rodrigues e Miguel Falé. No mesmo período, nenhum dos ditos três grandes teve tantos jogadores da formação a serem lançados: Rúben Amorim estreou oito futebolistas no Sporting, seis apareceram no FC Porto com Sérgio Conceição e quatro tiveram os seus primeiros minutos de primeira equipa no Benfica com Jorge Jesus (ninguém, por enquanto, com Nélson Veríssimo).

A cabeça de Carlos Carvalhal não funcionará por comparação, mas no plural. “Somos a equipa técnica que mais jovens lançou no SC Braga e dá-nos um gozo tremendo ver os nossos meninos a jogarem e a terem sucesso”, garante à Tribuna Expresso antes de, outra vez, exaltar o quão “mágico” e “fantástico” é chegar à equipa principal. “Foi para mim, naquela altura, e é para estes jovens”, prossegue, alargando a sapiência sobre esta matéria para a qual uns clubes se viram com mais vigor do que outros.

No futebol há estratégias e caminhos que se seguem. Mais do que serem melhores e piores do que outros, ou certos e errados, precisam que seja dado tempo ao tempo para descobrir se dão resultado. No SC Braga, a espécie de necessidade justificada pela inauguração da Cidade Desportiva, em 2017, cujas obras de expansão ainda decorrem, juntou-se ao engenho de um treinador sem pudores em criar um contexto favorável a que jovens jogadores trepem escada acima; depois, existe tudo o que pode ser aguçado pelas coisas que serão sempre incontroláveis — uma lesão de um futebolista graúdo, um cartão vermelho que força a ausência de alguém, uma venda irrecusável pelos euros envolvidos e por aí fora.

Vitinha à frente de Bruno Rodrigues e Guilherme Soares <strong>Foto:</strong> Diogo Cardoso/DeFodi Images via Getty Images

Vitinha à frente de Bruno Rodrigues e Guilherme Soares Foto: Diogo Cardoso/DeFodi Images via Getty Images

No SC Braga como noutro clube de futebol que seja, ajuda e muito que haja uma preferência vinda de cima e uma certeza do que se pretende fazer com o que se colhe em casa. Carlos Carvalhal regozija-se, também, por “estar a cumprir” o “objetivo que o presidente António Salvador” lhe pediu quando chegou, de “lançar jovens da academia”. Que uma intenção nos escritórios esteja de ponteiros acertados com uma preferência no relvado torna aquilo a que se joga mais claro para toda a gente.

Por cima de tudo isto terá de haver qualidade com morada fixa em cada futebolista que esteja a aparecer. Não basta ser jovem e pronto. Vindos da formação do clube, Carlos Carvalhal sabe que eles “estão a sentir a camisola e o facto de terem feito toda a formação no clube e chegarem à primeira equipa de um clube do qual são adeptos”. O treinador sabe, também, o que isso significa — “significa muito” — e ciente está, com os seus 56 anos mais do que rodados no futebol, que “podem não singrar todos” porque isso é a estrada sinuosa da vida, mas “cumpre aos jogadores aproveitarem a janela de oportunidade”.

Uns já o fazem com afinco e os dentes cerrados no osso que lhes foi estendido. O avançado Vitinha, cheio de apetência para se movimentar na frente e romper organizações defensivas alheias com as suas corridas, leva 10 golos em 17 jogos esta época; o central Bruno Rodrigues esteve em cinco das últimas sete partidas; e a locomotiva canhota que é Francisco Moura já o ano passado rolava embalado pela esquerda, quando uma lesão lhe passou a perna durante meses: “A grande maioria aproveitou e alguns começam a fixar-se na equipa”.

Além dos fatores incontroláveis e da sorte e do azar que sombreiam quem tem, ou não, sucesso no futebol, o treinador fala da “questão transversal” a todas as equipas, apesar de tudo o que tenha mudado no futebol entre o agora e a década de 80, quando a versão de chuteiras e equipamento de Carlos Carvalhal apareceu. “Sempre encontrei dois tipos de jogadores: os que jogam futebol, que entendem o jogo, e os que jogam à bola”, resume, antes de explicar onde diz estar “a diferença” que separa os melhores dos bons — “o jogador da bola percebe da sua função específica e pode ser um grande jogador da bola, jogando na sua função específica; o jogador de futebol entende o jogo, entende outras funções, entende os ritmos de jogo e tem facilidade em aplicar as ideias do treinador”.

Com o tempo, o trigo separar-se-á do joio entre os jogadores e o Carlos Carvalhal que ia “pela mão do pai e da mãe” ver os jogos do SC Braga, criando “sonhos no imaginário”, é quem hoje regozija por poder interferir “em ano de centenário” do “clube do coração” no lançamento de projetos de futebolistas como ele outrora foi. E tenta fazê-lo com um estilo de jogo que diz ser um reflexo “do que as pessoas” de Braga “querem ver no clube”: um futebol “de toque, de qualidade e de posse”. O treinador nasceu e reside na cidade onde “se preocupam com a estética, em estarem bem apresentadas, bem vestidas”, mas também são gentes “de muito trabalho”.

E quem nutre um carinho pela estética neste mundo da bola talvez sussurre um “diverte-te” ao ouvido de cada garoto a quem dê a oportunidade de se estrear na equipa principal do SC Braga. Ou um “muito trabalho, mas preocupação com a estética, com o futebol bonito”, diz Carlos Carvalhal, ao resumir a “cultura” que aprendeu no seu tempo e tenta “transmitir” agora aos miúdos que está a lançar. Afinal, qualquer jardim deve ser bonito, mesmo um feito da infância das carreiras de muitos jogadores.