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Miguel Barbosa: “Os puristas dizem sempre África, África, África. Perde-se a mística do passado, mas fiquei fascinado com a América do Sul”

O piloto português vai participar na edição de 2022 do Dakar, entre 1 e 14 de janeiro, 12 anos depois da sua última participação. O percurso começa e termina na cidade de Jeddah, na Arábia Saudita. Entusiasmado com o regresso à mítica prova de todo-terreno, conta nesta entrevista algumas histórias que viveu em África, fala da beleza do Dakar na América do Sul e das expectativas que tem pela frente, num projeto pensado a dois, três anos

Alexandra Simões de Abreu

O piloto português junto do camião de apoio da sua equipa, com a qual vai participar nesta edição do Dakar

NUNO BOTELHO

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Quando tomou a decisão de voltar a participar no Dakar?
A ideia sempre cá ficou. Começou a ser trabalhada quando decidi voltar ao todo-o-terreno, em 2020. Impus na minha cabeça regressar com o objetivo n.º 1 de voltar a ser campeão nacional, se o conseguisse como já era a 8.ª vez, teria de pensar noutra coisa. Assim que concretizámos o objetivo, já estava com a cabeça no Dakar. Na Arábia Saudita a diferença horária é benéfica, acaba tudo muito cedo. Isso, a juntar a uma nova postura da organização do Dakar, com outras pessoas à frente, com muito mais dinâmica, ajudou a conseguir reunir condições para o regresso.

Uma das novidades deste Dakar é o facto de só terem acesso ao roadbook em cima de cada etapa. Isso dificulta a vida a todos, mas também equilibra mais as coisas, certo?
O roadbook só é entregue 20 minutos antes da partida, para evitar os “map men” que trabalhavam a noite toda para descodificar alguma coisa e fazer algumas cartas. Confesso que estou curioso para ver como é que funciona porque dizem que a navegação vai ser muito mais difícil. Não sou contra a ideia, mas tenho de experimentar, para julgar.

Isto obrigou a uma estratégia diferente com o seu copiloto, o Pedro Velosa?
Ele já fez um curso de preparação, tem quatro Dakars, mas acho que estamos os dois no mesmo nível. É muito importante a cooperação entre piloto e copiloto nos momentos de decisão, porque um piloto quer sempre tudo imediato. Chega a um sítio, "por onde é que é?”. Às vezes podemos levar o copiloto em erro e acho que é nesses momentos que vamos ter de parar um bocadinho mais, ter mais calma, para dar mais tempo ao copiloto do que se dava antigamente. O nosso instinto vai ser pressionar logo para encontrar uma saída. Propositadamente o roadbook é menos preciso do que era antigamente. No Dakar não há muito tempo para pensar, as coisas metem-se umas atrás das outras. Quando chegamos da etapa temos o briefing com os engenheiros, depois temos osteopata e temos de tratar da nossa nutrição, beber, repor tudo. O foco no Dakar é sempre descansar.

Como foge dos momentos de maior tensão? Falando com a família ou indo para um canto sozinho?
[Risos] É rapidamente esquecer. Temos um momento, somos confrontados, podemos irritar-nos, mas não serve de muito, só vamos desperdiçar energia. Só que às vezes acaba por ser inevitável, porque estamos mais cansados, ou porque não estamos num dia tão bom. A minha maneira é esquecer, porque se ficamos a remoer, é pior.

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