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“O Sócrates gostava de causar polémica para criar debate”: uma conversa com o autor da biografia do futebolista brasileiro

O jornalista escocês Andrew Downie viveu quase 20 anos no Brasil e, pelo meio, acabou a escrever sobre Sócrates Brasileiro, o futebolista do calcanhar genial que ergueu a voz pela Democracia Corinthiana e que, apesar de posições contrárias no passado, combateu, no relvado e na rua, a ditadura militar instalada no Brasil. Em 1984, ameaçou abandonar o país caso não fosse aprovada a emenda constitucional Dante de Oliveira, que visava recuperar as eleições diretas para Presidente da República. Foi por isso que viveu um gélido ano em Florença, tanto que até deixava as cervejas fora de casa. Em conversa num português açucarado com a Tribuna Expresso, no dia em que se assinala o 10.º aniversário da morte do jogador de futebol com nome de filósofo, Downie explica o homem, as suas verdades e contradições

Hugo Tavares da Silva

Mark Leech/Offside

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Viveu quase 20 anos no Brasil. Quando é que decidiu que tinha de escrever sobre Sócrates?
A história é um pouco longa. Aconteceu depois do primeiro livro que traduzi, o livro do Garrincha que Ruy Castro escreveu ["Estrela Solitária - Um Brasileiro Chamado Garrincha"] . Depois, a editora de Londres perguntou-me se queria fazer outra tradução. Eu disse que sim e perguntei de quem era. "Do Sócrates". E eu: "oh, paaaa, claro, adoraria". Quem não quereria traduzir o livro de Sócrates? Então, traduzi, só que nunca foi publicado por motivos administrativos e burocráticos, mas também porque no livro que o Sócrates escreveu faltava um pouco de futebol. Tinha muita história, muita filosofia e aquelas coisas intelectuais do Sócrates, mas faltava um pouco saber sobre jogos e personalidades.

Liguei ao Sócrates, falámos brevemente e perguntei-lhe: "Que tal sentarmos, você conta as histórias e eu escrevo? Mudamos o livro um pouco". Ele disse que sim, mas o Sócrates era um homem de ideias, não de fazer as coisas. Era pensador, não fazedor. Nunca nos sentámos porque ele nunca conseguiu resolver os problemas burocráticos com a editora italiana, que impediu a publicação do livro dele. Lendo esse livro, aprendi muito mais sobre o Sócrates, eu sabia que ele tinha uma história maravilhosa, foi um homem muito interessante e isso esteve sempre na minha cabeça. Depois da Copa de 2014, no Brasil, eu estava a procurar um projeto e pensei "porque não escrevo a biografia do Sócrates?". Falei com algumas pessoas, toda a gente achou boa ideia e foi aí que comecei.

O Andrew diz que ele era mais pensador do que fazedor. Como era Sócrates fora dos relvados, quem era o homem?
Isso foi a parte mais atraente do projeto. Eu não tenho muito interesse só em escrever sobre o cara que marca golos ou sobre o guarda-redes que faz boas defesas, alguém que faz passes bonitos e essas coisas. Há milhares de jogadores que valem livros. Para mim, o interessante do Sócrates era essa parte extra campo. Ele tinha várias dimensões que a maioria dos jogadores não tem. Como deve saber, ele era médico, escreveu, estava envolvido na política, era ativista social. Tinha todas essas outras camadas e personalidade que eu achei interessantes. Foi o barato do projeto [de onde retirou prazer], aprender sobre esses outros Sócrates. O desafio e o que mais queria era apresentar esse outro Sócrates às pessoas que não o conheciam, particularmente fora do Brasil. No Brasil, toda a gente se lembra da Democracia [Corinthiana], todo o mundo sabe mais ou menos o que é. Todo o mundo sabia quem era Sócrates e a personalidade dele, mas, fora do Brasil, as pessoas lembram-se dele mais por causa dos Mundiais de 1982 e 1986.

Pertencer à Democracia Corinthiana foi o maior feito da vida dele?
Segundo ele, sim. E não só, várias pessoas envolvidas. O Wladimir diz sempre: "Eu tive uma vida antes da Democracia Corinthiana e uma vida depois da Democracia Corinthiana". Segundo o Wladimir, estar envolvido numa coisa tão marcante muda a vida das pessoas. Com certeza que foi a mesma coisa com o Sócrates. Antes da Democracia Corinthiana, ele era um jogador conhecido no Brasil, já estava a jogar na seleção, mas depois da Democracia Corinthiana era conhecido muito além das quatro linhas. Eu obtive uma declaração de Lula [da Silva] que resumiu perfeitamente: "A Democracia Corinthiana é tão extraordinária que ainda estamos falando nisso 40 anos depois".

É verdade.
Uma coisa interessante é isso nunca ter sido repetido num grande clube. Nenhum clube do mundo conseguiu experimentar um sistema parecido, era tão revolucionário que não foi repetido.

Durante uma ditadura militar.
Ainda mais [isso], sim. Por causa do momento era ainda mais chocante e revolucionário, diria.

Acha que hoje há algum futebolista como Sócrates ou o futebol moderno não permite jogadores politizados?
Tenho uma resposta com duas partes. Primeiro, as demandas que o futebol moderno coloca nos jogadores são infinitamente maiores do que na época do Sócrates. É muito difícil para um jogador desse nível, capitão da seleção ou um jogador de uma equipa como Brasil ou Corinthians. Toda a pressão que isso implica é muito difícil para os jogadores encontrarem tempo para se dedicarem a outras coisas além do futebol. Dito isso, há alguns raros exemplos no futebol. Há sempre esse debate e pessoas dizendo que os jogadores não são politizados, mas existem alguns, sim. Vemos o Marcus Rashford, por exemplo, em Inglaterra. Há outros, numa escala muito menor, que têm uma fundação ou uma ONG e que colabora de algum jeito.

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Quando você compara futebol com outros desportos, nomeadamente basquetebol e futebol americano e particularmente os negros norte-americanos, eles envolveram-se muito mais nos movimentos sociais. Colin Kaepernick, LeBron James... Eu não sei explicar porque o futebol não tem mais pessoas politizadas. Não sei se por causa dessas pressões, não sei, é uma boa pergunta. Porque não estão mais jogadores envolvidos a grande escala como o Sócrates estava? Eu diria outra coisa: Sócrates era um homem diferenciado. Ele veio de uma família – e isso faz uma grande diferença – da qual o pai insistiu que todos os meninos (eram seis irmãos) fossem à faculdade, que estudassem. Havia muita pressão na vida dele para estudar. Ele veio desse ambiente de ler, de estar envolvido, aprendeu com os anos a envolver-se nesses temas. E muitos jogadores não vêm desse ambiente, é muito importante. De certo modo, é meio cruel comparar um jogador que vem de uma família de classe média-baixa ou de uma família pobre com um cara como o Sócrates. Acho que não é uma comparação muito justa.

E o futebolista, como era Sócrates?
O Sócrates era único. Era um jogador de classe, lento, que fazia passes e marcava golos, que jogava no meio-campo e no ataque. Mas ele destacou-se por causa do calcanhar, era uma coisa muito particular dele. Todo a gente percebeu essa coisa do calcanhar. Ele aprendeu a usar o calcanhar por motivos pragmáticos. Era alto, muito magro, tinha pé pequeno e dizia que era difícil virar-se rápido. E, mais importante do que isso, como era tão magro e tão fraco, dizia que, quando começou a jogar, era contra os caras que no Brasil se chamam beque de fazenda, defesas grandes, rudes e físicos. "Aprendi muito rápido, muito jovem, que se seguro a bola o zagueiro vem e bang, vai-me pegar. Eu ia sofrer porque não tenho o físico e a massa muscular para sobreviver a essas entradas", dizia.

Ele aprendeu a soltar a bola o mais rápido possível. Às vezes, a bola vinha de trás ou de lado, não tinha tempo, então soltava a bola de calcanhar, porque era mais fácil. Se viu os vídeos dele a soltar [a bola] de calcanhar, não era só com o calcanhar clássico, às vezes era com a sola, com o lado do pé... eu vi-o a fazer passes de calcanhar de 30 metros que dividiam e abriam a defesa. Ele fazia passe em volei com o calcanhar, era uma coisa que realmente o distinguia dos outros jogadores.

Aquela Copa de 1982 foi especial para ele, não foi? Até pelos sacrifícios e pelos hábitos de que abdicou, que não eram bons para um jogador.
Sim, sim, era um jogador que bebia e fumava. Era um homem muito... não sei se teimoso é a palavra certa... Era uma pessoa que sabia quem era e não ia mudar o seu comportamento por ninguém. Antes da Copa de 1982, ele entendia que era uma chance de ouro para ganhar o Mundial. Ele sabia que precisava de estar em forma. Durante os primeiros meses de 1982, parou de beber e de fumar, ou cortou radicalmente. Lembro-me do Zico contar que os outros jogadores não acreditavam [risos] porque o Sócrates estava a treinar, a puxar pelo grupo a fazer voltas ao campo. O Zico dizia: "O que é isso!? É o Magrão na frente? O Magrão correndo mais rápido do que todos os outros!? O que está acontecendo aqui?". Ninguém estava acreditando, sabe? Todo o mundo viu isso e ficou meio inspirado, sabendo que, se o Sócrates estava parando de beber e fumar, ele realmente estava a levar a coisa a sério.

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Ele fez all in na questão das “Diretas já” e abandonou o Brasil. Como é que foi aquela passagem por Itália?
Não foi um ano feliz para ele. Era muito frio, ele não gostava do frio. Foi o inverno mais frio em quase um século em Itália. Ele deixava as cervejas fora de casa para que ficassem mais geladas [gargalhada]. Mas a grande diferença é que, no Corinthians, o Sócrates era a inspiração da equipa, era o foco da equipa. Tinha jogadores no meio-campo que corriam por ele, sabe? Ele achava que ia para Itália fazer a mesma coisa, mas os caras estavam muito mais iguais. Não sei se falaram, mas pensaram: "Porra, quem é que você acha que é? Acha que não precisa de correr e eu tenho de correr por você?". Ele não lidou muito bem com o profissionalismo do futebol italiano. Em 1984, a Itália já tinha aberto para jogadores estrangeiros. Era como a Premier League hoje, os melhores jogadores queriam jogar lá. Era muito competitivo e os níveis de profissionalismo eram mais altos. Isso era um grande problema para o Sócrates. Havia a famosa racha na equipa, segundo ele. Havia dois grupos zangados, um lado não passava ao outro, era um ambiente muito ruim na Fiorentina. Ele realmente sofreu em Itália. Quando apareceu a oportunidade de voltar, ele agarrou-a com as duas mãos.

Quais são as grandes contradições da vida de Sócrates?
O Sócrates gostava de causar polémica para, a meu ver, criar debate. Não era para ser idiota, gostava de ouvir todos os lados, é uma coisa que falta muito hoje em dia. Um lado não fala com o outro, está tudo muito polarizado. O Sócrates gostava de falar com o outro lado, era uma oportunidade para se sentar no bar [risos], com um monte de cerveja, rindo, debatendo, zoando [fazer pouco de alguém], sabe? Era um ambiente muito feliz para ele. Há um cantor brasileiro, Raul Seixas, que famosamente cantava: "Prefiro ser essa metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo". Ele dizia essa frase porque pensava da mesma forma. Queria saber, aprender mais e as posições dele mudaram muito. Ele apoiava a censura, por exemplo. Deu uma entrevista em 1976 dizendo que "a censura às vezes é necessária". Coloca esse jovem, de 1976, comparando com o cara que em 1982 estava lutando contra a ditadura. O Sócrates mudava muito, por isso era tão interessante. Você não sabia o que esperar dele.

Creio que Sócrates chegou a dizer que era radical até mudar de opinião.
Isso [risos].

Enquanto investigava e escrevia o livro, o que mais gostou de descobrir ou o que mais o surpreendeu?
O que mais me surpreendeu foi como chegou ao ponto de ter as crenças que tinha. Muitas pessoas, quando eu comecei, diziam-me que o Sócrates sempre foi de esquerda. E o Sócrates não foi sempre de esquerda. Ele acabou por ser um homem de esquerda. Traçar e ver esse ser humano desenvolver e ter essas ideias como "censura é necessário" para entender que isso era errado, para entender que a ditadura era errada. Ele deu nota 10 ao [João] Figueiredo, o general, em 1979. Mas tardou pouco tempo [a mudar]. Ele foi lendo, falando com pessoas que sabiam dos assuntos, estudou, falou, jantou com sociólogos, políticos, sindicalistas, escritores, arquitetos, psicanalistas. Ele conversou com todas essas pessoas para aprender e chegou à conclusão que o jovem que ele era mudou de opinião. Era muito interessante ver um cara saber que era assim, que teve posições pró-ditadura, e vê-lo mudar para o homem que virou tão querido e tão importante no Brasil.

Foi a Ribeirão Preto?
Fui 10 vezes, eu adoro Ribeirão Preto. Fiquei amigo de muitos amigos do Sócrates. Sempre gostei de ir lá de fim de semana, dava para ver o Botafogo a jogar, conhecia pessoas interessantes e outro lugar, outra cultura. Era um momento muito rico na minha vida.

E o que contavam os amigos de Sócrates?
Conversei com amigos que eram colegas dele no curso de Medicina, conversei com amigos de quando ele jogava no clube [Botafogo de Ribeirão Preto], falei com algumas das ex-esposas dele. Todos eles ainda amam o Sócrates. Era muito raro encontrar uma pessoa que tinha alguma coisa contra o Sócrates. Todo o mundo gostava dele, mesmo sabendo quando ele errou.

  • Mil novecentos e oitenta e dois
    Crónica

    Aquele vestuário amarelo e azul e a maneira simples, inocente e líquida como a bola viajava entre os brasileiros talvez me tenham transportado até aos tempos em que jogava ao lado de amigos com uma vestimenta igual. Era tudo simples sem grandes cálculos. O caminho era para a frente. Jogar por jogar. Porque este sábado há Flamengo - River Plate, para a Copa dos Libertadores