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Francisco Belo

Francisco Belo

Atleta lançamento do peso

Valores na pele (ou porque é que um atleta tatua o símbolo olímpico)

Francisco Belo, atleta olímpico do peso, explica que olhar para os anéis olímpicos o relembram dos valores importantes que fazem parte da lista de “regras de vida” que quer manter

Francisco Belo

ANDREJ ISAKOVIC/Getty

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Como médico, atleta olímpico e, acima de tudo, ser humano, dou por mim, algumas vezes, a pensar na inevitabilidade de tudo mudar e que naturalmente... tudo passa, o bom e o mau... e já a minha mãe diz, há muitos anos, que “quando partimos só deixamos quem fomos e não o que tivemos...”

Dei por mim, a cada dia, nesta minha caminhada de vida, a prestar cada vez mais atenção aos valores que procurava dentro de mim mesmo.

Sempre trabalhei e continuo a trabalhar, com os meus 32 anos, para construir esses valores todos os dias, com falhas humanas, naturalmente, mas procurando aceitar na mudança a construção de um melhor "eu".

Mais recentemente tatuei o símbolo olímpico no braço, por muitos motivos, entre eles porque é um símbolo que me torna melhor e me relembra de valores importantes que fazem parte de uma lista longa de "regras de vida" que escrevo, para mim mesmo, há vários anos, como pilares na minha construção.

Um dos valores do olimpismo é a "excelência", não só na procura de resultados mas, igualmente importante, na procura da minha melhor versão e de dar o meu melhor a cada dia.

Acho que nos vamos perdendo tanto na correria dos dias e na velocidade da (des)informação, e por vezes excesso da mesma, que nos esquecemos de cuidar de nós mesmos e dos nossos valores… esquecemos que merecem atenção como um filho a quem queremos ensinar e preparar para o futuro.

Nessa procura descobri que nos encontramos e que percebemos quem somos e quem queremos ser… auto-conhecimento esse que me fez entender que, para ser feliz, tinha de mudar e procurar em mim mesmo respostas…

Mudei rotinas, mudei objetivos de vida, metas pessoais e profissionais, deixei as redes sociais, que senti não me fazerem bem, deixei de me preocupar tanto com o que os demais pensam ou com as consequências dessas decisões e "ausência social", que nos dias de hoje, infelizmente, mais parece que morremos…

O que nos faz felizes é tão relativo…

Mas, naturalmente, como disse, tudo muda e não sou radical ao ponto de considerar que todos deviam seguir o mesmo caminho… apenas a mesma procura.

O que me traz a outro valor olímpico... o "respeito". Respeito por mim e pelos demais. Aceitar que terei opiniões diferentes de outras pessoas e que isso é natural e mutável. Ser honesto comigo próprio e com os outros. Tomar as decisões certas, ainda que por vezes difíceis, para cumprir o objetivo de reforçar sempre o amor-próprio, mantendo um respeito inabalável por todos.

Aprendi a respeitar tanto ao conhecer culturas e pessoas pelo mundo todo, como atleta, como ao conhecer cada pequena parte da nossa própria cultura dentro das paredes de um hospital, como estudante e depois já como médico.

Durante anos, muitas viagens, muitas pessoas diferentes, muitas religiões, muitos valores, procurei se existiria, ou deveria existir, algo transversal entre nós humanos… e acredito que o respeito deveria ser transversal, respeito pelas pessoas, pelo mundo, pelos animais, pelo meio-ambiente.

Daí ser tão importante transmitir-vos o quanto o desporto ensina e o quanto me fez, faz e fará melhor pessoa. Assim como tem o poder de o fazer para todos e de ser uma ferramenta de mudança e crescimento.

E porque naturalmente toda esta procura significa que não vivemos isolados, e conhecer pessoas muda-nos… conhecer o mundo muda-nos… existe mais um valor olímpico a manter bem perto de nós: a "amizade".

Porque procuramos o entendimento e aceitamos que respeitar valores é encontrar em outras pessoas um ser único, que procura o mesmo que nós, e que tantas vezes nós queremos replicar, que nos faz bem e nos torna melhores. Aceitar as diferenças do outro e ver essa amizade como algo que nos faz crescer na esperança também de sermos uma pequena parte do crescimento e bem-estar desses que estão connosco a cada dia. Perto ou longe…

Apesar de social, sempre fui muito "fechado", mantendo os meus bem perto de mim, valorizando (mais do que vejo o mundo valorizar) a palavra amigo. Dedicando o melhor de mim e tentando mudar esse "pequeno mundo" um passo de cada vez. Quem não quer isso para os "seus"?

O que me traz de volta ao início, ao que somos e aos valores que carrego comigo no coração e na pele…

Ser médico é muito mais que ser um cuidador de doenças, é ser um cuidador de pessoas, de almas e muitas vezes apenas mais um apoio incondicional. Tal como ser olímpico é, e deveria ser, muito mais que ser desportista, muito mais que ser um dos melhores, é aceitar que essa procura infinita, e inalcançável, faz parte de nós e com a qual aprendemos a ser melhores.