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Um clássico com muitos salamaleques, cortesias, “por quem sois” e satyagrahas de Gandhi (por Bruno Vieira Amaral)

O escritor Bruno Vieira Amaral escreve sobre um clássico filantrópico, a fazer lembrar uma bonita história de 1914, poucos meses antes do início da I Grande Guerra

Bruno Vieira Amaral

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Conhecem a história daquele jogo disputado entre tropas inimigas no Natal de 1914, poucos meses após o início da Primeira Guerra? Um acontecimento extraordinário, sem dúvida, em que, devidamente imbuídos de espírito natalício, aqueles homens mostraram que o futebol pode unir o que a política e o ódio separam.

Lembro-me sempre deste jogo quando vejo um Sporting-Porto. Não há clássico no futebol português, e dificilmente haverá algum no futebol mundial, disputado em tão grande ambiente de cordialidade. Clássico como o conto de Charles Dickens. Clássico como o “Jingle Bells” e o “Silent Night”. Clássico como o “Música no Coração” na noite de Natal. Mais do que um jogo amigável, é um armistício. Sente-se que a partida pode ser interrompida a qualquer momento para deixar passar um comboio humanitário da Cruz Vermelha; que, no intervalo, o coro de Santo Amaro de Oeiras pode subir ao relvado e espalhar magia natalícia pelo ar. Todos e quaisquer sentimentos de raiva e de rivalidade são reservados, como quem reserva um molho, para ocasiões em que serão de maior utilidade a ambos os contendores.

O jogo de sábado foi, assim, mais uma celebração deste espírito de fraternidade, tão raramente testemunhado nos estádios de futebol. Na tribuna presidencial, a proximidade entre Frederico Varandas e Pinto da Costa deu o mote para um encontro de acordo com as regras da urbanidade e do convívio aristocrático. Se os treinadores gostam de citar Sun Tzu e a sua “Arte da Guerra”, Sérgio Conceição e Marcel Keizer devem ter optado por basear as respetivas palestras no “Livro do Cortesão”, de Baldassare Castiglione.

Os adversários depuseram as armas e entraram numa espécie de pacto de não-agressão, com muitos salamaleques, cortesias, “por quem sois”, culminando na recusa educada em infligir danos ao adversário, mormente através de remates perigosos ou entradas homicidas. O habitualmente letal Marega comportou-se à altura dos mandamentos da satyagraha de Gandhi. Soares, isolado, não quis desrespeitar os anfitriões e, à boca da baliza, preferiu chutar caridosamente com a canela. Bas Dost teve uma oportunidade que não costuma desperdiçar, mas, tolhido pelo clima cristão, foi tão meigo como um objetor de consciência. Até o árbitro contribuiu, na medida das suas possibilidades, para que os instintos belicistas não viessem à superfície. Quando Bruno Fernandes fez uma daquelas faltas cínicas a meio-campo, Hugo Miguel poupou-lhe o segundo amarelo para não tingir de sangue a festa, entendendo que uma falta tão cirúrgica era, mais do que um comportamento anti-desportivo, um ato médico, digno de Hipócrates, um “primum non nocere” aplicado ao futebol. Mas como é que poderia haver derramamento de sangue se os jogadores entraram em campo anémicos?

Tudo isto teve como resultado uma grande propaganda à paz entre os homens de boa vontade, mas um medonho espetáculo de futebol. As quase 50 mil almas em Alvalade devem ter ficado arrependidas de não terem passado a tarde de sábado numa sala de teatro, seguindo o sábio conselho dado por Conceição há uns meses. O outrora bárbaro Maxi Pereira disfarçou-se de Florence Nightingale, a quantidade de faltas serviu para se jogar a um gracioso ritmo distrital, dentro dos limites de velocidade nas localidades, e, não fossem as reações pavlovianas do banco do Futebol Clube do Porto ao apito do árbitro e algumas amostras do cancioneiro vernáculo, ninguém se atreveria a confundir este jogo com um confronto oficial entre dois dos maiores clubes portugueses. Não se chegou ao ponto de os jogadores entrarem em campo com papoilas na lapela e de trocarem abraços durante o jogo, mas, no final, os jornalistas terão hesitado entre escrever uma crónica ou um tratado de diplomacia.

Compreende-se que alguns jogadores do Sporting, depois do que viveram na Academia, sofram de stress pós-traumático e se esforcem por evitar a todo o custo situações de conflito que lhes relembrem aquele cenário. Como tal, o louvor maior deve ir para os jogadores do Porto que, benevolentemente, pouparam os companheiros de profissão a semelhante sofrimento. Um Sporting-Porto como este pode afastar os adeptos do futebol, mas pode aproximá-los da meditação, da solidariedade e do pacifismo. Quem sabe se alguns dos adeptos que, até agora, têm confortado os estômagos com cachorros e bifanas nas roulottes à volta dos estádios não se convertem ao vegetarianismo, às salsichas de soja e aos enchidos de seitan?

Não se pode menosprezar o impacto de um acontecimento destes. Se há muitos jogos que são lembrados pelas suas características bélicas – quem não se recorda da Batalha de Nuremberga, em 2006? – este merece ficar para a história como o Tratado de Alvalade, o Acordo de Camp Grand ou a Cimeira do Lumiar. Sporting e Porto podem ter perdido dois pontos, mas por tudo o que fizeram no sábado são dignos do prémio fair-play da Fifa, do prémio Sakharov, do Nobel da Paz. O que interessa um resultado de futebol quando se dá ao mundo um exemplo tão elevado de humanitarismo e filantropia