Perfil

Crónica de Jogo

Marítimo - FC Porto. Um caos desfeito em cinco minutos

Num jogo com 43 faltas, 9 amarelos e 2 vermelhos, a que se juntaram as expulsões de Sérgio Conceição e Vítor Bruno, o Marítimo até começou melhor, mas o intervalo foi útil para o FC Porto aclarar as ideias e entrar melhor no segundo tempo. Num ápice choveram dois golos, por Wendell e Galeno, e os campeões nacionais depois trataram de segurar o resultado

Hugo Tavares da Silva

HOMEM DE GOUVEIA

Partilhar

Às vezes parece que o Olival tem um túnel secreto e intemporal para as Antas. Por aí, numa qualquer gaveta dissimulada num reservatório a que nenhum transeunte ou descrente têm acesso, são guardadas as sementes raras do universo portista. Esta noite o processo repetiu-se mais uma vez: Bernardo Folha, filho de António, foi titular pela primeira vez no FC Porto. O passado já contara histórias semelhantes: Domingos e Gonçalo Paciência, Sérgio e Bernardo e Francisco Conceição, António e Ricardo Sousa, André e André André, Vitoriano e Francisco Ramos.

Essa noite feliz do debutante Folha não foi feliz: foi expulso ainda na primeira parte. Esse incidente só não foi mais grave para a equipa, numa altura em que o jogo estava 0-0, porque Pablo Moreno, um jovem espanhol com um passado surpreendente (Barça, Juventus, City, Girona), também foi expulso. Entre essas duas expulsões, Sérgio Conceição viu o vermelho, copiando assim o que já fizera Vítor Bruno. Conclusão: a primeira parte foi um caos com 26 faltas e oito cartões. E zero golos.

Foi tudo tão improvável que foi até o Marítimo quem esteve mais perigoso no ataque no primeiro tempo. Brayan Riascos, que já passara pelo nosso campeonato, estreava-se. Léo Pereira, tão atrevido contra o Sporting há poucas semanas (e que duelo com Pedro Porro), estava mais atento às subidas de João Mário, que se transforma numa boa notícia pois empurra para a frente Pepê, enigmático e veloz e tão bom de bola. Pablo Moreno, com uma melena muito à Julen Guerrero, deixou alguns detalhes interessantes até ser expulso, por entrada sobre Pepe. Bruno Xadas esteve mais discreto, mas aquela canhota é sempre uma ameaça. Com ares de imparável suspira por vezes o futebol de Cláudio Winck, pela direita.

O FC Porto, que controlava tudo atrás e no meio-campo, não estava particularmente acutilante na frente. Não havia alegria nem voracidade. O jogo não fluía. Mehdi Taremi parece outro (sairia ao intervalo), sem grande participação, sem aquele veneno tão especial e humilde. Folha, voluntarioso, deu pouco com bola enquanto esteve em campo. Otávio é aquele que nunca esquece quem é, a utilidade do internacional português é quase sempre especial. É daqueles futebolistas que dominam o jogo, que definem gritos de guerra ou diplomacias.

Antes do intervalo, momento em que tudo mudou, Xadas esteve perto do golo, depois de um cruzamento de Léo Pereira. Val Soares começou a jogada, o mesmo jogador que poucos minutos depois obrigou Diogo Costa a mandar-se para o chão e a sacudir a bola para longe da infelicidade coletiva. Estranhamente, era o Marítimo a equipa mais vertical e tentada em ser feliz.

HOMEM DE GOUVEIA

Com o intervalo chegaram Evanilson, pelo apagado Taremi, e também Liza, André Vidigal e Nito. Os visitantes vieram mais vivos (o contrário do outro lado também aconteceu, o que irritou José Gomes), provavelmente com as orelhas ainda a cantarolar umas quaisquer palavras de Sérgio Conceição através de um qualquer dispositivo eletrónico. Não havia espaço para grandes frescuras e especulações. Se o Porto quer ser campeão, teria de encurtar os 11 pontos de distância para o Benfica, que contava com mais dois jogos realizados. Do outro lado, no penúltimo lugar, os madeirenses tentam fugir à despromoção – em 12 pontos possíveis com José Gomes, somaram sete (7/15 depois desta noite).

E bastaram cinco minutos neste segundo tempo para os arrojados homens fardados de amarelo, verde e branco cederem. O diálogo foi mantido por Uribe, Pepê, João Mário e Evanilson. Parecia um comício mudo e belo, onde só a irrequieta bola estalava de bota para bota. Wendell foi o destino final, à entrada da área. Apesar da hesitação, lá decidiu bater na baliza de Giorgi Makaridze. A perna do lateral brasileiro fez estilo chicote, tal a força que quis imprimir e a velocidade com que quis retirar o pé perante a proximidade dos dentes de uma bota alheia. Belo golo.

Esfumadas as dúvidas, o Porto continuou a ser melhor e a querer resolver o assunto que inexplicavelmente deixou em mãos alheias durante 45 minutos. Logo a seguir a Wendell soprar uma brisa quente para as sementes no tal túnel secreto entre Olival e Antas (50’), Wenderson Galeno recebeu um passe de Pepê, pela direita, e encostou para o 2-0 (55’). Parecia fácil. Com bons jogadores costuma ser assim. O extremo, que tem mais compromisso e competitividade do que o talento que aquece algumas almas, chegou aos 14 golos na temporada. Tem sido seguramente um dos mais importantes jogadores da equipa.

Já com André Franco em campo, pelo lesionado Otávio, os cartões amarelos recuperaram o protagonismo, e as faltas idem, algo a que não fica alheia a sensibilidade do árbitro. O Marítimo, que continuava agressivo (terminaria com 28 faltas) e definitivamente descrente e lembrado do lugar em que está, já não chegava à frente como na primeira parte. José Gomes refrescou e arriscou um bocadinho, mas não havia maneira de fazer suar Diogo Costa. O Porto estava tranquilo e sob controlo, mais do que nunca.

Com fadiga nas pernas e calculismos mil, Sérgio Conceição mandou recuar o FC Porto, terminando o jogo até com mais um defesa lá atrás para segurar a clean sheet. Fábio Cardoso fez companhia a Iván Marcano e Pepe, uma dupla experiente que foi limpando o que havia para limpar. O recuo premeditado deu uma vida ao Marítimo que não teve até ali. Mas, contas feitas, o jogo terminou mesmo 2-0 tal como desejava a equipa técnica portista. Com esta vitória, os campeões nacionais ocupam agora o segundo lugar, ficando à espera do que sai do Sporting-Sp. Braga.