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Crónica de Jogo

Vitória - FC Porto. O regresso de Pepe e o retorno ao previsível

Insistente no jogo direto e constante nos lançamentos de bola para as constantes corridas que alguém fazia nas costas dos defesas, o FC Porto foi uma equipa previsível em Guimarães e só um golo do lateral João Mário desatou (0-1) uma vitória. Lá atrás, um quase quarentão (falta um mês) regressado à titularidade como um jovem adulto manteve a casa fechada

Diogo Pombo

HUGO DELGADO/LUSA

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É sabido porque contado por ele como Kepler Laveran de Lima chegou a Portugal com fome, sem carcanhol no bolso e permeável à empatia humana para uma pessoa lhe oferecer uma refeição no aeroporto quando era um adolescente. Acabaria por rumar à Madeira, fixou os primeiros arraiais e estreou-se nos futebóis de cá pelo Marítimo no lugar da ilha onde lobos-marinhos se refugiavam em tempos, cabem mais de 20 anos esse jogo e este jogado em Guimarães, já com o nascido no Brasil e vivente como português há muito conhecido pela sua alcunha.

Aí está Pepe, o imponente e delgado central de cabeça rapada a ver as quatro décadas de vida somente um mês, mas que não se via a começar uma partida pelo FC Porto desde outubro. Culpa então de uma lesão no ligamento colateral interno do joelho, depois devido a uma fratura do cúbito do braço no Mundial, a lição não é de anatomia, é mais de como nem as manigâncias de um fustigado corpo de quarentão parecem frenar a provação do defesa central, mais uma.

Aos 43 segundos corta serenamente um cruzamento, aos 5’ desarmar a ousadia de Jota Silva, nos 26’ persegue a desmarcação de Afonso Freitas para lhe ganhar posição e desviar a bola e aos 41’, à beira da área que não a sua, pisou Dani Silva por logo cair na pressão a uma bola perdida por Wendel - o cartão amarelo que viu e contra o qual refilou compõe o ratatouille do defesa, que sem um volátil momento destes que hoje Pepe, à sua escala, mantém mais ‘temperados’, não seria o Pepe que aqui se descreve. E ele, nos descontos da primeira parte, ainda foi o último abraçar João Mário quando se abriu o moche festivo em torno do jogador.

O lateral acabara de reclamar uma bola na área, desviá-la de um adversário escorregadio e rematá-la com estilo, um golo vistoso a mascarar 45 minutos de frouxidão do FC Porto causada por fantasmas de precipitação passados. A equipa entrou em Guimarães apostada em apressar as jogadas rumo ao último passe e em ter os atacantes a pedirem passes nas costas da linha defensiva, comportamento muito à la Sérgio Conceição, que antes do intervalo já era filmado a bufar perto do banco de suplentes com descontentamento pelo que algum jogador fazia em campo.

O FC Porto teve uma parte a só conseguir circular a bola entre os centrais e algum dos médios, Uribe ou Eustáquio, que se aproximavam no espaço vagado por um dos laterais. Tudo o resto era quase a exploração constante da profundidade, precipitando o tal último passe quando o passador estava muito afastado da área (Otávio, sobretudo). Os dragões eram apostadores fiéis no jogo direto, vivalma se posicionava no meio-campo para tentar fazer diferente e fora o golo de João Mário, só o mesmo João Mário, encarando e acelerando na direita, picou um cruzamento que Wendel rematou a rasar o poste.

O organizado Vitória lidava pacificamente com esta postura alheia, mas, além do irrequieto do Grealish à portuguesa, que tentou um par de remates, os vimaranenses dependiam em demasia desses beliscões de Jota Silva no jogo e no pé de Mikel Villanueva na saída de bola: sendo o central do lado canhoto, construíam tombados para esse lado, onde todo o passe mais arriscado no espaço pelo venezuelano se deparava com uma contrariedade a rondar esse lado do campo.

Era Pepe, outra vez ele.

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Octavio Passos/Getty

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Octavio Passos/Getty

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DeFodi Images

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O capitão do FC Porto continuou a ver a equipa insistir no método feita a conversa no balneário, a insistência projetou até Eustáquio para mais corridas de rutura na última linha de cinco do Vitória que, avantajado no número de adversários que tinha à frente quando recuperava a bola, recomeçou o jogo com um par de contra-ataques rápidos. Nem por isso incomodaram, era pouca a ameaça que retirava de André Silva e Jota, em quem residia a maior capacidade para agitar.

A resistência à mudança perdurou 59 minutos, o inócuo Toni Martínez saiu para o previsível dar lugar à irreverência, entrou a variante circunflexa de Pêpê para os três centrais vitorianos ficarem apenas com uma referência mais fixa para marcarem e mais dúvidas a popular-lhes a cabeça. Dando a companhia do brasileiro a Otávio, então já a pedir bolas entre defesas e médios no centro da relva, o FC Porto parecia ganhar outras intenções. Esporadicamente, sim, o entrado brasileiro teve bolas para receber, virar-se e tocar a curta distância, mas os hábitos nos humanos são de difícil mutação.

A excelsa oportunidade do FC Porto, aos 72’, brotou de um lançamento aéreo pelo qual Taremi batalhou, o iraniano roubou a bola a um defesa, tentou rematar e o ressalto levou a bola às pantufas de Pêpê, que numa nesga simulou uma intenção para fintar e pontapear com o pé esquerdo. A tentativa rasou o poste. Depois, com o ajuntamento de linhas do Vitória para ter muralhas na sua área quando defendia, o FC Porto matutou as suas jogadas, quis ou não hipótese a pesar mais os passes, tentando pelo meio para depois jogar por fora e ter paciência caso não surgissem os espaços. Ou seja, a serenidade construtora apareceu só tarde.

A cortejar os 90’, ainda se viu um frouxo remate de Taremi vindo de uma correria de Galeno, por sua vez vinda de um pontapézão de Diogo Costa, servindo esta que seria a derradeira das espreguiçadelas atacantes do FC Porto para demonstrar o quão influente pode ser a proeza do guarda-redes em colocar a 60 ou 70 metros de distância. Pepe, sereno e com cara despreocupada, era vizinhança do local onde partiu essa bola e parte da justificação para os mansos ataques do Vitória está na omnipresença tátil deste defesa central, cujo raio de ação é onde o perigo estiver a espreitar.

Pepe voltou e um suficiente FC Porto ganhou. Arrelias físicas à parte, a idade ainda parece ser um mero adversário a anular para o defesa que ninguém ousará arriscar quando deixará de ser central para uma equipa pretenda continuar a ganhar jogos.