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Crónica de Jogo

Santa Clara - Benfica. Não pressionem Enzo, que não é preciso

Qualquer jogador é melhor se lhe concederem tempo e espaço para matutar o que fazer com a bola. Nos Açores, Enzo Fernández foi só mais um a confirmar essa ciência exata no futebol, dando duas assistências na vitória (0-3) do Benfica contra o Santa Clara que também serviu para Gonçalo Guedes marcar nem 48 horas após regressar ao clube

Diogo Pombo

EDUARDO COSTA/LUSA

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‘Pressionar o portador da bola’ é dito e rebatido, provavelmente, nos relatos de quase todos os jogos de futebol neste planeta, e poliglota no seu uso, porque é daqueles chavões a que se pode criticar o repetido uso, mas cuja aplicação no campo é tão necessária, inclusive elementar, sem bola de cristal é seguro adivinhar que a sua utilização perdurará até ao fim dos tempos dos pontapés na tal bola, pois se, na prática, esse cliché não for aplicado, qualquer portador é melhor jogador.

Isso é ciência exata, amador ou profissional todo o futebolista vira leopardo, chita, tigre ou outra espécie elevada na hierarquia dos felinos se partir como um gato nesta analogia em que receber a bola com tempo e espaço para pensar é um abono para quem for, então no caso de Enzo Fernández é um disparate o quão perigoso o argentino se torna para os adversários se estes não fizerem por pressioná-lo quando é o porta-bolas no Benfica.

Novidade será para ninguém, mas, aos 9’, assim que João Mário tirou rapidamente a bola da direita para a esquerda, fazendo-a chegar a Grimaldo, o espanhol de pronto a tocou no campeão do mundo à beira da área, que mostrou o quão errado é deixá-lo à vontade: levantou a cabeça, ajeitou a bola, cruzou-a em jeito na direção da baliza e achou a cabeça que procurava em Fredrik Aursnes, tudo feito rápido e sem esforço para ser do norueguês o primeiro golo que castigou o desrespeito dos Santa Clara pelo chavão elementar do futebol.

A tendência prosseguiria com os açorianos encafuados na sua metade do campo, os seus médios a perseguirem sombras face às simples combinações de passes com que o Benfica envolvia sempre três jogadores no centro - ter Aursnes, João Mário e Draxler a deambularem nas costas de adversários é um fartote de opções - com os laterais Paulo Henrique e Calila fixados pelo posicionamento dos homólogos Bah e Grimaldo, bem subidos no campo precisamente para tal e, retornando ao mesmo, no caso do espanhol servia também para Enzo aparecer nesses quintais de relva mais à esquerda.

Nas suas chuteiras que tanta sola pisam na bola o Benfica acorrentou o Santa Clara em 40 metros de campo, aos 16’ foi do argentino o pequeno passe a rasgar a linha defensiva que lançou Grimaldo para um cruzamento rasteiro e uma finalização trademark de Gonçalo Ramos, que atacou a zona do primeiro poste para marcar com um ligeiro desvio. Ele ainda remataria, pedalando sobre a bola com um defesa na sua cara, enganando-o e batendo contra o guarda-redes Gabriel Batista; nele e na baliza Julian Draxler não acertou apesar de sozinho na área a cruzamento de Bah; e de pé esquerdo João Mário tão pouco encontraria o alvo.

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EDUARDO COSTA/LUSA

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EDUARDO COSTA/LUSA

Na génese ou após uma breve bola perdida, essas tentativas beneficiaram do contrário que faltava ao Santa Clara, entre os jogadores do Benfica havia pressão intensa aplicada às receções dos adversários e os açorianos sofriam, não conectavam três ou quatro passes seguidos. À meia hora o recente Jorge Simão, chegado a Ponta Delgada há duas semanas, trocou MT, acrónimo pelo qual Matheus Nunes Fagundes Araújo se auto-nomeia na camisola, por Ricardinho e a toada só mudou perto da hora de jogo. As pistas foram três cantos seguidos e um remate desviado de Gabriel Santos, quando Gonçalo Ramos já se isolara na pradaria das costas dos defesas e não atinou o remate com a baliza.

A dezena de minutos entre os 60’ e os 70’ seriam as melhores dos anfitriões, por fim encostaram as suas posições nos adversários, não o deixaram tocar na bola à vontade e nutriram as participações de Bruno Almeida e Ricardinho nas jogadas, os dois criadores de ideias antes de Gabriel Silva se confirmar como o rematador de serviço: aos 68’, bateu fortemente a bola que apenas a cabeça de António Silva impediu de entrar na baliza. Mas a inflação do Santa Clara na partida estava umbilicalmente ligada à presença do jogador do diminutivo: quando o azar tocou no substituto e uma lesão o virou em substituído, os açorianos murcharam de volta ao seu estado inicial.

A um ritmo mais de esticões quando a lentidão das jogadas pensadas não imperava, os últimos 20 minutos foram de rearrumação do Benfica, ainda à boleia da simplicidade certeira de Enzo quando a pressão na bola amansou nos adversários e ele teve o tempo, o espaço e o passe para encontrar um retornado na área. Chegado na quinta-feira à casa que abandonou há seis anos, Gonçalo Guedes encarou um adversário na área, orientou a bola para o centro e rematou, sempre a correr como em 2016 zarpou para fora nem com duas épocas completas de equipa principal.

O remate desviado do filho tornado à sua naturalidade deu o terceiro golo ao jogo, em tempos idos houve um vídeo pandémico nas visualizações onde um cidadão prestes a estatelar-se na mata por ir tão veloz em cima de um skate teve em “sai da frente, Guedes” as célebres últimas palavras, nos descontos o Guedes do Benfica ainda teve outro remate para sair na frente dos marcadores da partida em que os encarnados regressaram às vitórias, fechando tudo com pacatez, tranquilidade e tempo para todos jogarem à vontade. Deixarem que Enzo Fernández o faça continuará a ser meia obra feita para cada posse de bola do Benfica virar uma tormenta a quem os enfrente.