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Crónica de Jogo

FC Porto - Arouca. Mehdi Taremi, o omnipresente, e Toni Martínez, o apressado

O FC Porto está nos quartos-de-final da Taça de Portugal, depois de bater (4-0) o Arouca. Taremi voltou a estar em destaque, com duas assistências e participação constante na criação de futebol ofensivo, numa partida em que Toni Martínez saiu do banco ao intervalo para fazer três golos

Pedro Barata

DeFodi Images/Getty

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Apreciar o futebol de Taremi é das tarefas mais simples do futebol nacional. Se há futebolistas que podem ter funções menos vistosas, habitualmente descritas como sendo o clássico “trabalho invisível”, o jogar do iraniano é do mais visível que há. Quando está em campo, há uma regra que quase sempre se cumpre: onde está a ação, está Taremi. Onde a presença do ex-Rio Ave é precisa, lá está ele.

Por estes dias, falar de Taremi como um ponta-de-lança é altamente redutor. Sim, é um atacante com golo, ou não levasse já 21 entre clube e seleção esta temporada. Mas é, também, unidade de ligação entre o meio-campo e a frente, sempre pronto a recuar ou lateralizar a sua posição, de acordo com o que a sua apurada intuição entender que é necessária. É, ainda, solidário defensor, capaz de pressionar ou recuperar a bola.

E, claro, um refinado leitor do jogo, capaz de analisar as movimentações dos colegas e de fazer os pés corresponderem ao que o cérebro interpreta, fazendo-lhes passes de golo. São já nove assistências nesta época.

A omnipresença do iraniano conjugou-se com a exibição de Toni Martínez para desenhar o 4-0 com que o FC Porto bateu o Arouca nos oitavos-de-final da Taça de Portugal. Se Taremi é pausa e critério, Martínez é vertigem e decisão. Onde o iraniano é cheio de nuances e recursos variados, o espanhol é mais unidimensional, virado para o remate e para o golo. Que, no final de contas, é o objetivo deste jogo.

A goleada começou-se a construir com duas assistências de Taremi, a primeira para Galeno e a segunda para Toni Martínez. O espanhol entrou no segundo tempo para terminar com as esperanças do competitivo Arouca de Armando Evangelista, com três golos para confirmar que aproveita ao máximo os minutos que Sérgio Conceição lhe dá. A sete pontos do Benfica na I Liga, nas meias-finais da Taça da Liga, nos oitavos da Champions e agora nos quartos da Taça de Portugal, o FC Porto continua em ação em todas as frentes.

DeFodi Images/Getty

Embalado pelo bom momento recente — só uma derrota nos últimos sete jogos, com triunfos em quatro das derradeiras cinco partidas —, o Arouca entrou com personalidade no Dragão. Tudo o que de bom a equipa faz parte das canhotas de David Simão e Alan Ruiz, velhos conhecidos que aqui encontraram um refúgio para o futebol que possuem dentro deles. Logo ao primeiro minuto, um livre lateral do português quase fez Uribe marcar na própria baliza. Não mais os visitantes voltaram a ameaçar Cláudio Ramos.

Pouco a pouco, os locais foram-se aproximando com mais perigo da baliza adversária. Taremi, aos 15', e Veron, aos 20', desperdiçaram as primeiras ocasiões para os detentores da Taça.

O crescimento do FC Porto foi-se dando pela valorização da figura de Taremi. O refinado iraniano recuava no campo para dar criatividade, multiplicando a sua presença pelo relvado. Aos 26', passou, em poucos segundos, de roubar a bola a Alan Ruiz e fintar Antony perto da sua área para estar a receber perto da linha defensiva rival.

Foi com este fato de assistente, um dos muitos que possui no seu armário de bom futebol, que Taremi desbloqueou o desafio. Aos 31', recebeu nas chamadas entre-linhas, na zona onde os craques podem fazer danos. Levantou a cabeça e serviu, no espaço, Galeno, que bateu Valido com uma finalização cruzada, na passada, lembrando o estilo de Thierry Henry.

Até final do primeiro tempo, Uribe ameaçou o 2-0, mas o descanso chegaria com margem mínima no marcador. O FC Porto dominava, mas ficava a ideia que, quando Taremi recuava para ligar, faltava quem ocupasse o espaço deixado pelo iraniano, com Veron algo afastado do jogo.

DeFodi Images/Getty

Ao intervalo, Sérgio Conceição lançou Toni Martínez e a lacuna descrita rapidamente desapareceu. O espanhol entrou cheio de fogo, móvel e venenoso, decidido e agressivo.

Aos 55', a boa entrada do espanhol levou ao 2-0. Mas, antes da finalização do ex-Famalicão, voltou a haver um omnipresente a deixar a sua marca. Taremi recebeu a bola vinda da direita e, de primeira, assistiu Martínez, num passe que exigiu tanto ao cérebro, pela velocidade de leitura da situação, como aos pés, pela leitura para o executar.

Apenas dois minutos depois do 2-0, veio o 3-0. Numa raridade, Taremi não participou no golo. Uribe recuperou a bola em zona subida e deu para João Mário, autor de uma bela exibição na direita. O português cruzou atrasado, numa daquelas bolas que fere os defesas, que vão a correr para a sua baliza e são apanhados em contra-pé. Toni Martínez fez o 3-0.

Com a eliminatória decidida, Galeno e Grujic acertaram na barra e Danny Namaso, saído do banco, também ameaçou o 4-0. No entanto, a grande explosão no Dragão depois do 3-0 dar-se-ia aos 77', quando Pepe entrou em campo. O central não jogava pelo FC Porto há quase dois meses, desde 12 de novembro.

Nos últimos instantes da partida, Toni Martínez teve uma boa oportunidade, na direita, para assistir os colegas na área. No entanto, o espanhol, que entrou cheio de pressa, não teve o critério necessário para assistir, perdendo-se o lance, para riso de Sérgio Conceição. É o tal futebol de uma dimensão, aquela que o espanhol tão bem domina. E que voltou a aparecer aos 94'. Novamente servido por João Mário, o ex-Famalicão fez o 4-0 final. Leva já nove golos em 2022/23, número relevante para quem só tem 970 minutos de utilização.

O FC Porto, que só perdeu um dos últimos 30 jogos na Taça de Portugal, está nos quartos-de-final. Segue-se duelo com o Académico de Viseu, tal como sucederá nas meias-finais da Taça da Liga.