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Crónica de Jogo

FC Porto - Arouca. Eu gosto é do Veron

Mehdi Taremi marcou três na goleada (5-1) ao Arouca, mas a surpresa no regresso do FC Porto às lides da I Liga foi o brasileiro Gabriel Veron. O jovem avançado, que pouco havia jogado na primeira fase da época, foi titular e instrumental para a vitória, mostrando em campo o trabalho de paciência de Sérgio Conceição com um futebolista que chegou a Portugal sob um manto de desconfiança

Lídia Paralta Gomes

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A paciência é um dom e nem sempre a associamos a Sérgio Conceição, pela intensidade ou arreliação que amiúde mete cá para fora.

Talvez estejamos a ser injustos. O que se vê pela rama leva a ideias feitas e levianas e todos somos culpados desse pequeno pecado tão humano quanto a existência. Porque o que está para lá disso diz-nos que o treinador do FC Porto, tantas vezes vigoroso nas suas emoções, trabalha como poucos as pérolas que lhe vão chegando às mãos, tornando em operações certeiras apostas tantas vezes arriscadas dos dragões.

Olhe-se para Luis Díaz, que depois de uma primeira época de adaptação encontrou no segundo ano no Dragão a continuidade necessária e na terceira a genialidade e o rendimento que o levou ao Liverpool. Ou para Pêpe, que quando o colombiano deixou o FC Porto já tinha meses de trabalho no Olival, essenciais para se afirmar como alternativa, dando ainda a Conceição a flexibilidade para o ver jogar em outras posições.

A derradeira experiência na chocadeira de Conceição parece ser o brasileiro Gabriel Veron. O avançado que chegou do Palmeiras envolto em surdinas de desconfiança e zunzuns de indisciplina não se afirmou no arranque da época, mas ninguém desesperou porque se sabe o que a casa gasta. O miúdo, então com 19 anos, seria para nutrir com carinho nos treinos do Olival, para imbuir no espírito que a equipa exige e no regresso do campeonato, após sete semanas de paragem para o Mundial, foi ele o escolhido para substituir o lesionado Evanilson.

E se o encontro com o Arouca servir de amostra, este pode muito bem ser mais um caso de sucesso do laboratório de Conceição.

Quality Sport Images/Getty

É certo que Mehdi Taremi marcou três golos mas do iraniano já esperamos tudo isto: jogar e fazer jogar, frieza em frente à baliza, pedra basilar de um ataque que esta quarta-feira, no Dragão, ofereceu a espaços um merecido espectáculo aos quarenta e muitos mil adeptos que encheram as bancadas, numa noite de chuva intensa e num jogo que teve o seu apito inicial a umas indecentes 21h15. Mas a surpresa da noite foi mesmo Veron, um jogador transfigurado face às escassas aparições que foi tendo na primeira metade da época, como se nestas semanas Conceição o tivesse estado a preparar em segredo, que nem princesa de conto encantado, para uma aparição triunfante.

É ele que logo aos primeiros segundos do jogo faz o remate à Robben - recebe na lateral, flete para o meio e arco, you know the drill - que obrigou Arruabarrena a uma defesa apertada, permitindo uma espécie de recarga de Otávio para o 1-0. A jogar como um nómada não acidental no ataque, o jovem brasileiro parecia andar um pouco por toda a parte nos primeiros minutos, em que a pressão do FC Porto foi intensa. Aos 18’, e já depois do Arouca centrar de novo os chacras do jogo, é ele que combina com Taremi, tirando um ror de adversários da jogada com apenas um toque e permitindo ao iraniano encarar sozinho o guardião do Arouca para o 2-0.

Daí até ao terceiro golo, de Taremi aos 34’, ainda ofereceu uma bola de golo linda, linda, de calcanhar, todo no ar, a dar um toque de magia voadora a uma jogada toda ela bela, mas que Uribe desaproveitou, atrapalhando-se no remate à entrada da área. Antes do intervalo, viu bem Taremi e colocou-lhe um passe atrasado que o avançado definiu mal.

Em suma, uma primeira parte de luxo do menino.

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A 2.ª parte, pesada, jogada sob chuva azucrinante, foi mais discreta por parte de Veron, que ainda assim contribuiu para o resultado volumoso que o FC Porto foi construído neste regresso da I Liga, em dia de aniversário de Pinto da Costa e da 215.ª vitória de Sérgio Conceição pelo FC Porto, igualando o mítico José Maria Pedroto. Esteve no quarto golo da equipa e terceiro de Taremi, colocando na área a bola que tocaria em João Basso, facilitando o hat-trick do iraniano. Taremi seria ainda parte essencial do então 5-0: a ideia era cruzar para Toni Martinez, mas a bola embateu em Opoku e entrou - há fases em que tudo em que se toca se transforma em ouro, até involuntariamente.

O relógio marcava então 70 minutos, tempo mais do que suficiente para o FC Porto mostrar aquilo que quer nesta segunda fase do campeonato, numa entrada forte, com intenção, ataques bem gizados e segurança lá atrás. O Arouca, diga-se, é uma equipa que ataca bem, de forma objetiva, mas pecou muito atrás com erros infantis de posicionamento e exibições individuais inesperadamente desastradas - João Basso é o exemplo mais flagrante, mas Milovanov terá seguramente muitos pesadelos quando se encontrar com a almofada.

No período de afrouxamento do FC Porto, Bruno Marques reduziria com um remate-chicote de pé esquerdo, depois de um erro a meio-campo do FC Porto, a única mancha numa noite em que o marcador até poderia ter ficado mais desequilibrado. E, mais que isso, fica a expectativa do que pode ainda evoluir Gabriel Veron, mais um possível fruto da pouco elogiada paciência de Sérgio Conceição.