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Crónica de Jogo

FC Porto - Gil Vicente. Para o luto pós-Mundial, duas equipas corajosas pode ser o remédio

O FC Porto está na final four da Taça da Liga após vitória (2-0) e um bom espectáculo no Dragão frente ao Gil Vicente, que nunca se desligou da partida mesmo após sofrer cedo e ver-se a jogar com 10 a meio da 2.ª parte. Marcaram Galeno e Taremi

Lídia Paralta Gomes

JOSÉ COELHO/LUSA

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Em anos, ditos, normais, o futebol dá-nos aquela benesse de termos direito ao nosso luto pós-Mundial. É verão, ficam a faltar semanas até ao regresso do futebol de clubes e nesse processo é-nos permitido voltar a ter saudades.

Quando se assiste a uma final como a de domingo e nas 72 horas seguidas já se jogaram três encontros decisivos para uma taça, o pesar fica como que cortado a meio, sem respirar. É o que temos, Catar oblige.

Mas o corte indecoroso com o recuperar do nosso coração poderia ter sido ainda mais despudorado. Na segunda-feira, o Sporting foi dominador na 1.ª parte com o SC Braga, como que renascido com a paragem forçada nesta Taça da Liga. No dia seguinte, o Académico de Viseu intrometeu-se entre os grandes na final four, eliminando o Boavista, da I Liga. E esta quarta-feira, FC Porto e Gil Vicente protagonizaram, também nos quartos de final da Taça da Liga, aquilo que se convencionou chamar de um jogo de futebol “entretido”.

O que não é pouco para uma quarta-feira de chuva a três dias do Natal, numa competição que teve de se adaptar, sujeitando-se à indigência de ser jogada em pleno Mundial.

Com Daniel Sousa, o novo técnico dos barcelenses, o Gil parece ter recuperado alguma da aura da época passada e isso ajuda ao espectáculo. Mesmo entrando a perder, com um golo de Galeno logo aos 3’, numa jogada-carimbo do extremo brasileiro, com desmarcação e estraçalhar de linhas, a equipa nunca deixou de ir a jogo e durante a 1.ª parte foi repartindo os momentos de élan com os da casa, a jogar já com os mundialistas Otávio e Taremi a titulares. E mesmo que na 2.ª parte o guardião Kritciuk tenha, quem sabe, evitado uma goleada, o Gil nunca esteve verdadeiramente desligado da partida.

Da parte do Gil, o perigo veio essencialmente da química Fran Navarro/Boselli/Fujimoto, o avançado espanhol sempre rato a jogar de costas, o uruguaio junto à linha e o japonês bem a aparecer na área. Foi assim que surgiu a primeira oportunidade dos minhotos, aos 17’. E que Navarro apareceu junto a Cláudio Ramos pela esquerda aos 31’, para boa defesa do guarda-redes ex-Tondela e Boselli ia surpreendendo toda a gente com um slalom pela linha final antes do intervalo, com Cláudio Ramos novamente atento.

JOSÉ COELHO/LUSA

Já o FC Porto beneficiou de um Otávio nem pouco mais ou menos afetado pelos esforços do Mundial. Aos 19’, já depois da assistência açucarada para o golo de Galeno, obrigou Kritciuk à primeira de uma mão-cheia de defesas especiais. Galeno, em bom plano desde a paragem do campeonato, quase bisava aos 53’, com o guardião russo mais uma vez a responder, tal como respondeu com uma palmada a uma tentativa de chapéu de Pêpe aos 62' - o brasileiro, que substituiu Evanilson, que por sua vez tinha substituído Toni Martinez ao intervalo, também não acabou o jogo, abalado após um toque involuntário, mas forte, de um adversário no nariz.

O domínio portista que se foi reforçando na 2.ª parte, com mais bola e inúmeras oportunidades, deveu-se também à coragem do Gil Vicente, que nunca abdicou de jogar. Às vezes a coragem é loucura, mas não deixa de ser coragem. E nem com 10, depois da expulsão de Danilo, deixou de olhar para a frente. Os espaços, claro, apareceram. Fábio Cardoso falhou de baliza aberta logo após o vermelho e pouco depois o FC Porto faria o 2-0 aos 68’, um golo Mundial: Grujic brilhou sem tocar na bola, alheando-se da jogada por sentir que estava fora de jogo (e estava). E com isso permitiu a cavalgada de Otávio, que depois, no timing certo, deu o passe atrasado para Taremi, que finalizou.

Daí para a frente houve de novo Kritciuk a parar tudo o possível e impossível. Como já dissemos atrás, o Gil até poderia ter saído goleado no Dragão, mas não merecia. Depois de sofrer logo aos 3’, nada mudou na estratégia de futebol positivo, não se atemorizando. O jogo foi melhor por causa disso e os deuses do futebol sabem que, depois do Mundial, todos precisamos de animação.

Com a vitória, o FC Porto garante encontro com o Académico de Viseu na final four de uma competição que nunca ganhou. O campeonato retoma já na próxima semana.