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Vêm da terra de Pelé e já nem disfarçam

Crónica de Jogo

Sebastian Frej/MB Media

No primeiro carnaval organizado pela comitiva em Doha, no Estádio 974, o Brasil já vencia a Coreia do Sul por 4-0 (acabaria 4-1) aos 36 minutos. A exibição foi deslumbrante até cair, por homenagem ao que vem depois. A Coreia do Sul, de Paulo Bento, reduziu e acabou por ter várias hipóteses para marcar

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Hugo Tavares da Silva

Hugo Tavares da Silva

enviado ao Mundial 2022

Jornalista

Até o suor deve fazer o seu caminho à gargalhada. O que o Brasil faz é outra coisa. Vêm lá da terra de Pelé, ou de Didi e Garrincha, ou de Sócrates e Zico, enfim, são a razão pela qual a bola de futebol sai da cama todas as manhãs, esquecendo com vontade as amarguras e os desamores que sofre. Em tempos idos, há muitas décadas, Nelson Rodrigues escrevia implacavelmente contra os “idiotas da objetividade”. Subestimavam a arte e o drible, os pobres. E o escritor, jornalista, romancista, etc, tinha vaidade em exagerar no elogio e bater nos que desconfiavam da seleção brasileira. Esta noite, os dois lados da trincheira coravam de felicidade.

Com esta galera no Catar escorre o que é tontamente bonito e objetivo, existe talvez uma utilidade bela. Aos 36 minutos, o marcador cantava alegremente um 4-0 e celebraram-no como quem está feliz, sem sentimentos de culpa. Até os centrais, que talvez recebessem a 10 em muitas equipas, tocam de calcanhar ou assistem para golo em cima do aviso de cal que está perto da baliza. O lateral joga como médio centro. Os extremos são brasileiros do mais brasileiro que há. Todos correm, todos riem. Rivaldo, Roberto Carlos, Cafu e Ronaldo Fenómeno sentavam-se na tribuna dos cartolas, como reis, observando os truques e os desaforos dos sucessores.

Neymar Jr., com apenas 79’ nas pernas, voltou à equipa titular. No aquecimento não parecia estar fino, fino. Cláudio Taffarel, sim, era o mais efusivo dos guarda-redes, tal como seria nas celebrações dos golos no banco, aos saltinhos como um menino. A Coreia do Sul, treinada por Paulo Bento, que se queixou na véspera da injustiça relativamente aos tempos de descanso, dava espaço ao Brasil para sair em cavalgadas deslumbrantes. Foi arrojado, o plano do treinador português, nem que seja porque não foi defensivo ou ultra-defensivo. Defendia-se em 4-4-2 e atacava-se em 4-3-3, com o craque Heung-min Son atrás de Gue-sung Cho, um 9 alistado para mil batalhas.

Os tais 36 minutos foram fabulosos. No golo de Vinícius Jr., uma assombrosa demonstração de técnica e frieza, Raphinha sacou dois futebolistas sul-coreanos da frente, oferecendo a relva como banco a um deles. Lucas Paquetá entrou na bagunça libidinosa. O penálti de Neymar, no 2-0, foi batido com a insolência que somente pertence aos génios.

Buda Mendes

O 3-0, se Sócrates Brasileiro ainda escrevesse aquelas crónicas na “CartaCapital”, falaria em orgasmo triplo: Richarlison ganhou a bola depois de uma fofoca com a bola, qual foca dando três toques de cabeça, e Paquetá voltou a juntar-se. Thiago Silva, o central que estava em cima da grande área, deu de primeira na bola tão limpamente e isolou Richarlison. O 9 meteu na baliza de Seung-gyu Kim com facilidade. O quarto da noite, mágica e eterna como lembrará o agora reformado Estádio 974 (para quem não é sul-coreano, é certo), desenrolou-se porque Neymar descobriu Vinícius, que descobriu, picando a bola, Paquetá. O centrocampista bateu com o pé direito. o menos bom. E voltaram a dançar. Até Tite o fez, pombamente, numa rodinha com os jogadores do banco.

Paulo Bento era um caco. Os braços caídos e o rosto derrotado davam conta do que estava a pensar sobre o que estava a acontecer. Tirando as arrancadas mansas de Son, normalmente bem vigiadas, foi Hee-Chan Hwang o mais ameaçador. Na primeira parte obrigou Alisson a agigantar-se, uma vez pelo ar, outra não manchando uma tremenda mancha. In-Beom Hwang, um dos protagonistas na vitória contra Portugal, era dos melhores, mas ele e os colegas pareciam pouco tranquilos, o pé tremia quem sabe. Talvez seja o preço de jogar contra esta farda amarela e azul.

Neymar, um mago a quem a bola obedece loucamente e que até usa um choque com o árbitro para enganar dois adversários, joga perto de Vinicíus. É um carnaval. Quando decide armar-se em vagabundo, tropeça em Raphinha e Paquetá do outro lado. É outro carnaval. Atrás deles, como o pai que beija a testa do filho que erra sem maldade, está Casemiro, o amparador de almas. Talvez tivesse mais piada se o modelo de jogo de Tite permitisse algum caos, como acontece com o Fluminense de Fernando Diniz, talvez os olhos lambessem tudo isto com outro delírio, mas, e voltando à felicidade das duas trincheiras, a qualidade técnica destes futebolistas regala um mui satisfatório e palpável pedaço de céu a quem só quer ver algumas boas jogadas de futebol.

Marc Atkins

A segunda parte foi o que se esperou. Menos Brasil, travão de mão para não entrar em grandes euforias e desgastes físicos, sendo que se esperava o oposto do outro lado, provavelmente com Paulo Bento a beliscar os seus atletas para jogarem pelo orgulho e amor próprios.

Os sul-coreanos iam cheirando o golo. Alguma ou outra vez deram-se pequenos milagres, pois os deuses também gostam do que esta gente da terra de Chico faz ali em baixo. Essa pequena recompensa pela dignidade demonstrada, embora com o coração e as ideias desafinadas, chegou mesmo: Seung-Ho Paik bateu de fora da área e desta vez o pupilo de Taffarel, na seleção e no clube, nada pôde fazer. Foi um golaço. As oportunidades de golo continuariam a surgir, numa gesta que recusavam ser fatal.

Tite, talvez um aprendiz do que a vida lhe deu ou dos conselhos do amigo Ancelotti, aproveitou o pagode para permitir algumas pequenas satisfações ternas. Dani Alves, quem sabe com a última oportunidade para se sentir útil, entrou aos 63’ e ainda foi autor de um remate acrobático. Martinelli e Rodrygo, ambos em bom plano no jogo das rotações contra os Camarões (0-1, o único golo sofrido na Copa, o segundo foi esta noite), também entraram. Finalmente, Weverton, o guarda-redes do Palmeiras de Abel Ferreira, substítuiu Alisson aos 80’ para passar a ser tratado por senhor mundialista, o sonho de qualquer menino. Tite já colocou em campo os 26 do elenco.

“Quando eu dizia que Garrincha era varado de luz como um santo de vitral, os idiotas da objetividade torciam o nariz”, escreveu Nelson Rodrigues, em 1962. Esta noite, os futebolistas brasileiros pareciam todos varados pela luz como um santo de vitral. E ninguém torceu o nariz.

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    Para variar um pouco da imagem deixada na fase de grupos, o Japão começou a querer ter mais protagonismo com a bola, aceitando a pressão da Croácia durante a primeira parte. Até marcou primeiro, mas, aos poucos, os europeus absorveram o jogo para o seu ritmo lento de troca de passes e empataram, para a redoma durar 120 minutos. E, nos penáltis, o andamento trazido pelos croatas do Mundial anterior serviu-lhes para sobreviverem e a despedida de Luka Modric ser, pelo menos, nos quartos de final