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Pogacar, de carne e osso

O impensável aconteceu no Tour: Tadej Pogacar teve um dia mau, enrodilhado na estratégia coletiva da Jumbo-Visma. Quando Jonas Vingegaard atacou, na última montanha do dia, já o esloveno tinha dado tudo. Perdeu três minutos para o dinamarquês, que é o novo camisola amarela e a partir desta quarta-feira há toda uma nova Volta a França

Lídia Paralta Gomes

CHRISTIAN HARTMANN/Getty

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A 11 quilómetros da meta, antes do terreno empinar pela última vez em direção ao Col du Granon, Tadej Pogacar brincava com a câmera, sorria, mostrava os dentes com aquela arroganciazinha natural de quem parece tão superior aos outros, de quem procura, sempre, o desafio. Desde o primeiro dia deste Tour, ainda por terras dinamarquesas, que o esloveno pôs uma mão em cima da corrida, controlando-a como uma marioneta. Fosse contra o relógio, a sprintar em pequenos grupos, a atacar no empedrado e nas montanhas, a ir buscar os mais ínfimos segundos à concorrência só porque sim, Pogacar foi a todas, fez todas, ganhou duas etapas pelo meio e chegou sem delongas, controlo, cinismo ou poupanças à camisola amarela.

Surpreenderia um total de zero pessoas se essa camisola amarela não descolasse do corpo esguio do esloveno até Paris, o tri parecia business as usual a certa altura para ele, mas não vamos tão depressa: esta quarta-feira, o mundo acordou para uma realidade alternativa, aquela que nos diz, a todos nós, incrédulos, que Pogacar, sim, é de carne e osso, humano como a gente, alguém que tem maus dias, que sofre montanha acima. E no espaço de cinco quilómetros, mais coisa menos coisa, aquele sorriso trocista do puto de 23 anos tornou-se numa cara de esforço, numa camisola desfraldada (imagem inaudita), num Pogacar a olhar em frente e ver ciclista atrás de ciclista a ultrapassá-lo, ele que está habituado a olhar em frente e não ver mais ninguém.

Já dentro dos últimos cinco quilómetros da dura montanha que fechou a etapa 11 da Volta a França, Jonas Vingegaard acabou aquilo que a Jumbo-Visma construiu ao longo do dia. Às vezes, para se derrotar um gigante, é preciso partir para uma ofensiva incessante, suicida para tantos. A equipa neerlandesa assumiu as baixas: Primoz Roglic, já afastado de uma vitória na geral para a qual partia como o principal rival de Pogacar, não deu descanso à UAE Emirates no Télégraphe e no Galibier, obrigando a equipa do camisola amarela a responder a todo e qualquer ataque. E tantas vezes teve de ser o próprio Pogacar a fazê-lo, órfão agora de George Bennett, um dos seus escudeiros na montanha, perdido para um teste covid-19 positivo.

Tim de Waele/Getty

Com o trabalho feito, Roglic ficou definitivamente para trás na última subida, porque as grandes equipas também se fazem disto, de cordeiros sacrificados. No final, quando chegou acompanhado pelo colega Sepp Kuss, a mais de 11 minutos do primeiro, o esloveno festejou. Porque sabia que esse primeiro havia sido outro Jumbo-Visma, Vingegaard. Porque quando o dinamarquês atacou, Pogacar já não tinha pernas para responder, esvaziadas ao longo daqueles 152 km, caindo que nem um patinho no plano da Jumbo-Visma.

Tal como Pogacar havia tentado na etapa do pavé, ainda na primeira semana, Vingegaard atacou pensando em dinamitar o Tour. Ele não acabou, longe disso, mas a partir desta quarta-feira tudo muda. Vingagaard seguiu montanha fora e deu quase um minuto a Nairo Quintana (Arkea), mais de minuto e meio a Geraint Thomas (INEOS) e, claro, para deixar todos de pernas bambas, quase três minutos a Pogacar, uma enormidade para qualquer rival direto, quanto mais para o bicampeão da Volta a França, o rapaz para quem parecia não haver antídoto.

É claro que até ao lavar de todas as montanhas é vindima e há muito terreno para escalar. Jonas Vingegaard partirá na quinta-feira de amarelo para enfrentar a mais mítica delas todas, o Alpe d’Huez, que fecha a tirada. Só no final se saberá se o triunfo coletivo desta quarta-feira está não terá sido uma vitória pírrica da Jumbo-Visma, mas talvez não houvesse outra maneira de deixar Pogacar sozinho, descabelado montanha acima, sem ritmo, sem forças. Capitalizar o dia mau de Pogacar é agora o desafio, porque poderá não haver outro. Aliás, o sorriso rasgado do esloveno no pódio a vestir a camisola branca, agora que a amarela lhe fugiu, é impossível de ler: tem tanto de inocente como de malicioso. Talvez até já estivesse a pensar na quinta-feira.