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Tadej Pogacar vai a todas

O esloveno ganhou a etapa mais longa do Tour, com 219,9 quilómetros, num sprint vitorioso dentro de um pequeno grupo. À 6.ª etapa, está dado o aviso: o bicampeão em título escala, acelera, ataca, bate o relógio. A camisola amarela já está no seu corpo e ele parece capaz de tudo. E ainda vamos na primeira semana

Lídia Paralta Gomes

Tim de Waele/Getty

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É como se de repente aquele rapaz com cara que mal parece ter visto barba se tivesse tornado num assassino sem misericórdia, num sugador de alma dos rivais. Aos 23 anos, Tadej Pogacar já venceu duas Voltas a França e partiu para a edição deste ano como o principal favorito, mas ganhar, apenas ganhar, não parece o seu objetivo: o esloveno quer destruir, quer arrasar, quer mostrar desde o primeiro momento que é ele que manda, que nem xerife numa cidade do faroeste.

Na mais longa etapa do Tour de 2022, 219,9 quilómetros entre Binche e Longwy, uma espécie de clássica disfarçada dentro de uma volta de três semanas, Pogacar atacou já bem dentro dos derradeiros 500 metros, num pequeno grupo que se formou após a última contagem de 3.ª categoria, a cinco quilómetros da meta. Nesse grupo estavam os favoritos na geral e o australiano Michael Matthews, homem rápido, candidato máximo e à partida único naquele tipo de chegada. Pogacar pouco se importou: surpreendeu tudo e todos, sprintou como se toda a vida aquele fosse o seu métier. E com a bonificação de 10 segundos, a camisola amarela já é sua.

Ele escala, acelera a corrida, ataca e ainda bate o relógio. Parece capaz de ir a todas e ainda vamos na primeira semana.

O mais assustador desta inesperada vitória de Pogacar são as circunstâncias: porque o esloveno não precisa dela. Outro resguardar-se-ia para o que aí vem, na sexta-feira o terreno começa definitivamente a empinar e teremos a primeira chegada ao alto. Mas Pogacar parece tão mais forte que se pode dar ao luxo de desbaratar esforço, de arriscar, de esmagar emocionalmente a concorrência. A camisola amarela roubou-a a Wout Van Aert, o fabuloso ciclista belga da Jumbo-Visma que esta quinta-feira andou 130 quilómetros escapado, para se ver apanhado pelo pelotão (ou o que restava dele) a 10 quilómetros da meta. Antes de Pogacar, Primoz Roglic, que na véspera tinha praticamente atirado fora as suas possibilidades na Grande Boucle, também tentou a sua sorte e o contra-ataque de Pogacar pareceu quase uma espécie de humilhação para a Jumbo-Visma, uma entidade coletiva que parece nada conseguir contra um homem que nem precisa de equipa para brilhar - na véspera, havia sido o esforço do bloco neerlandês a impedir que Pogacar dinamitasse o Tour logo à 5.ª etapa e o esloveno pareceu querer vingar-se desse atrevimento e audácia.

Ainda assim, o esloveno estratosférico reconheceu o trabalho mais invisível da UAE Emirates, nomeadamente na hora de empreender a caça a Wout Van Aert. “Fizeram um grande trabalho para me colocarem na posição perfeita”, explicou o ciclista, que está longe de ser um sprinter, mas que diz ter sentido “boas pernas para atacar no fim”.

O objetivo, disse Pogacar no final, era apenas vencer a etapa, mas aquele ataque final saiu melhor que a encomenda: “Não me importo de ter já a camisola amarela, mas acima de tudo estou feliz pela vitória na etapa. Tudo o resto é bónus”.

Será por isso no seu já habitual amarelo que Pogacar vai enfrentar a primeira etapa de montanha deste Tour, 176,3 quilómetros entre Tombleaine e Super Planche des Belles Filles, na sexta-feira. Mais favorito do que nunca.