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Yves Lampaert, o surpreendente primeiro líder do Tour que pode agradecer ao boletim meteorológico

Os favoritos à vitória na etapa inicial da Volta a França adiantaram a sua partida tendo em conta as previsões de chuva em Copenhaga. Mas o tempo fintou-os, a água deixou de cair mais perto do final e quem sorriu foi o belga da Quickstep, que conseguiu bater Wout van Aert. Pogacar ficou em terceiro e já começou a ganhar tempo a toda a concorrência pela geral

Pedro Barata

DAVID STOCKMAN/Getty

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As horas anteriores ao começo do Tour, com um contra-relógio de 13,2 quilómetros pelas ruas de Copenhaga, pareceram a antevisão de uma corrida de Fórmula 1. Perante a chuva que visitava a capital dinamarquesa, as diferentes equipas olharam às previsões meteorológicas numa tentativa de entender em que momento a água que caia do céu amainava, afinando a estratégia em função disso.

Como se tratasse de uma tática de paragem nas boxes tendo em conta a chuva, os favoritos à vitória na etapa inaugural optaram por, ao contrário do normal, não serem os últimos a fazerem-se à estrada. As previsões indicavam que mais ao final da tarde de Copenhaga choveria mais, pelo que as principais apostas de cada formação escolheram partir mais cedo.

Mas todos já nos sentimos enganados pelos senhores do tempo, e a cara de Wout van Aert espelha bem essa sensação. O todo-o-terreno belga da Jumbo-Visma tinha conseguido ser mais rápido do que Tadej Pogacar ou Filippo Gana e parecia ter o triunfo no bolso, mas, depois de os favoritos partirem, a chuva deixou de cair em Copenhaga. E tudo mudou.

Em sentido inverso ao previsto, a água deixou de visitar a capital dinamarquesa, a estrada foi secando e as condições melhoraram. E, perante este cenário, Yves Lampaert aproveitou para um momento de glória. O belga da Quickstep fez o sinuoso percurso sem chuva e, com essa vantagem, foi cinco segundos mais rápido do que Wout van Aert.

Lampaert, aos 31 anos, terá a honra de ser o primeiro a vestir a camisola amarela dos sonhos de todos os que pedalam uma bicicleta. Após ter terminado o contrarrelógio, a forma surpreendia como falava da emoção em ter batido "o grande" Wout van Aert evidenciava o espanto em ter superado o seu compatriota, o mais completo ciclista da atualidade. Lampaert é bom na corrida contra o tempo — já foi duas vezes campeão nacional belga —, mas bater os maiores craques do momento não deveria ser um cenário que lhe passasse pela cabeça.

Filippo Gana, dominador da especialidade nos últimos anos, Van Aert e Tadej Pogacar, bicampeão do Tour, foram, respetivamente, o 64.º, o 65.º e o 66.º a partirem, quando ainda faltavam mais de 100 homens começarem, indicando que era naquela momento —pouco depois das 16, hora de Portugal continental — que se esperava melhor tempo. Mas foi Lampaert, que arrancou 40 minutos depois, o inesperado vencedor, muito graças às voltas do boletim meteorológico dinamarquês. Depois do homem da Quickstep, os últimos corredores a percorrerem os 13,2 quilómetros dispuseram de um piso também favorável, bem melhor que os grandes candidatos ao triunfo, mas andaram sempre longe de Lampaert.

A dois segundos de Van Aert, terminando no terceiro lugar, chegou Tadej Pogacar, o rival a bater por todos. O líder da UAE Emirates consegue, desde o primeiro dia, marcar diferenças para os seus adversários na luta pela geral: ganhou oito segundos ao dinamarquês Jonas Vingegaard, segundo do ano passado, nove ao compatriota Primoz Roglic, 17 a Geraint Thomas, 24 a Vlasov e 48 segundos a Enric Mas, que foi vice-campeão da Vuelta em 2021.

Numa primeira semana sem montanhas, mas cheia de armadilhas — este contrarrelógio, o vento nas etapas que se seguem na Dinamarca, os pavés da etapa 5 —, Pogacar começa logo a impor respeito aos que ousem desafiar o seu domínio. A Jumbo, com um poderio coletivo que permite juntar Van Aert, Vingegaard ou Roglic, terá de puxar dessa força para encontrar maneiras de deixar o fenómeno esloveno desconfortável.

O quarto lugar foi para Filippo Gana, que só tinha perdido um contrarrelógio em 2022 —foi batido por Stefan Bissegger no UAE Tour, um dos lesados pela chuva do começo da jornada, dado que caiu na estrada escorregadia pela chuva. O quinto posto foi para Mathieu van der Poel, neerlandês que promete animar os próximos dias para tentar chegar à liderança.

Tadej Pogacar num cenário icónico de Copenhaga

Tadej Pogacar num cenário icónico de Copenhaga

ANNE-CHRISTINE POUJOULAT/Getty

Os dois portugueses do Tour fizeram a etapa cedo, quando as condições eram piores, e foram prejudicados por isso. Nélson Oliveira, da Movistar, foi 52.º, a 51 segundos, e Rúben Guerreiro, da EF, foi 147.º, a um minuto e 38 segundos de Lampaert, à espera que o terreno empine e beneficie mais as suas características.

Depois da visita às ruas de Copenhaga, que abraçou a presença do Tour com a paixão pela bicicleta que a caracteriza, a corrida continuará em solo dinamarquês. A segunda etapa, com 202,2 quilómetros entre Roskilde e Nyborg, promete um final ao sprint, mas os homens da geral terão de ficar atentos aos famosos abanicos provocados pelo vento, particularmente quando atravessarem a ponte do Grande Belt, com 18 quilómetros de extensão.