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Nota 10 para a canhota de Grimaldo

O Benfica chegou às 10 vitórias em 10 jogos na temporada, derrotando (2-0) o Maccabi Haifa na estreia na fase de grupos da Liga dos Campeões. A equipa de Schmidt, que voltou a apostar praticamente no mesmo onze, teve dificuldades numa primeira parte monótona, mas no segundo tempo a qualidade do pé esquerdo do espanhol, autor de um golaço e uma assistência, desequilibrou a partida

Pedro Barata

CARLOS COSTA/Getty

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A bola foi cortada para fora da área do Maccabi Haifa, indo parar, sensivelmente, a meio do meio-campo dos campeões de Israel. O objeto mais cobiçado foi recolhido por Alejandro Grimaldo, que lhe deu dois toques, os quais a fizeram avançar alguns metros.

Perante a passividade dos visitantes, o lateral espanhol ajustou a sua passada, qual saltador que sabe exatamente onde colocar os apoios para chegar nas melhores condições possíveis ao momento do impulso. Coordenação motora aplicada, Grimaldo aproximou-se da bola para colocar-lhe o pé por baixo, num gesto que domina.

Ela saiu-lhe da bota esquerda com força, começando por contrariar a lei da gravidade e subir repentinamente, para logo em seguida fazer-se valer da força que nos atrai a todos para o centro da terra: desceu com a mesma violência da ascensão, entrando, com estrondo e obediência, na baliza do guardião Josh Cohen.

O golaço com que Grimaldo selou a vitória, por 2-0, do Benfica frente ao Maccabi Haifa surgiu aos 54 minutos, quatro depois de o mesmo pé esquerdo refinado do espanhol ter assistido Rafa Silva para que o supersónico português abrisse o marcador. Para chegar à 10.ª vitória em 10 partidas nesta temporada, e entrar a ganhar no grupo H da Liga dos Campeões, a canhota que disfere mísseis teleguiados do ex-Barcelona foi o fator decisivo.

Grimaldo celebra o 2-0, que faz Rafa Silva levar as mãos à cabeça

Grimaldo celebra o 2-0, que faz Rafa Silva levar as mãos à cabeça

NurPhoto/Getty

A continuação da campanha totalmente vitoriosa do Benfica surgiu apesar de uma primeira parte frouxa, com pouca energia e escassa criação de oportunidades de golo. Roger Schmidt apostou praticamente no mesmo onze, com Bah no lugar de Gilberto como única alteração, e a verdade é que a etapa inicial dos portugueses foi desinspirada.

Num grupo onde também há PSG e Juventus, é evidente que bater os israelitas era condição indispensável para sonhar com a fase seguinte, mas o Maccabi deixou uma imagem competente na Luz. Sem grandes executantes, a equipa visitante conseguiu baixar o ritmo do duelo no primeiro tempo, mostrando algum critério e capacidade para ligar o seu futebol e provocar incómodo no Benfica.

A única verdadeira ocasião de golo dos 45 minutos iniciais surgiu aos 30', quando Enzo Fernández lançou a vertigem de Rafa Silva. O campeão da Europa em 2016 tirou dois adversários do caminho e disparou para defesa atenta de Joshua Cohen. No outro lado do campo, a tranquilidade, assertividade na antecipação e conforto de bola de António Silva, de 18 anos e em estreia na Champions, eram notas de destaque.

O descanso chegou com apenas três remates enquadrados com alguma das duas balizas, expressão clara da pouca ação junto das áreas a que se assistiu. Ao intervalo, Schmidt tirou Gonçalo Ramos, muito fora do jogo, e colocou Musa, talvez menos finalizador, mas sempre disponível para tocar e conectar futebol ofensivo.

Joshua Cohen defende um remate de Rafa, na única oportunidade de golo da primeira parte

Joshua Cohen defende um remate de Rafa, na única oportunidade de golo da primeira parte

CARLOS COSTA/Getty

A segunda metade começou com um susto para o Benfica, com Florentino a ser desarmado por Mohammed Fani, mas o possante Pierrot, que talvez estivesse em posição adiantada, não conseguiu finalizar de forma eficaz na cara de Vlachodimos. Pouco depois, vieram os golos que desbloquearam a partida.

Aos 50', um apoio frontal bem ao estilo de Musa colocou a bola em Rafa, que soltou imediatamente para Grimaldo. O internacional português já foi criticado por não ser o mais voraz competidor, mas mal colocou a bola no espanhol, foi logo agressivo a correr para a área, onde se juntou a Neres e Musa. O preciso cruzamento de Grimaldo foi desviado por Rafa para o 1-0.

Nos quatro minutos que mediaram o primeiro do segundo golos, António Silva foi protagonista com um corte in extremis a evitar que Pierrot se isolasse, ainda conseguindo sair a jogar para Vlachodimos. Na ação seguinte, Grimaldo olhou para a baliza adversária e esmagou a bola para fixar o 2-0 final.

O supersónico Rafa Silva

O supersónico Rafa Silva

NurPhoto/Getty

Nos 30 minutos em que ainda se jogou, Rafa Silva levou, em duas ocasiões, o jogo para a dimensão em que quase só ele vive, um espaço em que a velocidade se multiplica e as arrancadas parecem feitas em cima de uma bicicleta. Nenhuma delas deu golo, mas foi um aviso para a capacidade de um atacante especialista em acelerar, travar e voltar a arrancar, sempre com passinhos pequeninos e de bola colada ao pé.

Enquanto o Benfica desperdiçava algumas oportunidades para o 3-0 — Musa rematou desenquadrado em boa posição, Enzo acertou no poste —, António Silva ia ganhando o aplauso da Luz. Numa das últimas ações do embate, o jovem central ganhou a frente ao seu rival direto, controlando a saída da bola com a tranquilidade que se costuma dizer que têm os veteranos, mas que na verdade é possuída pelos que têm qualidade, independentemente do que digam os documentos de identificação.

Numa noite em que se terá tornado mais evidente que, com um ciclo tão exigente de jogos em poucos dias, Roger Schmidt terá de começar a mexer no seu quase imutável onze em breve, o Benfica prolongou o sorriso que tem agarrado à cara desde que começou a época. Sem a inspiração coletiva de outras noites, a canhota de Grimaldo foi o atalho para os três pontos.