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Um penálti desempatou a bondade do pé de Kiko e a arte de Neres

Nos últimos segundos do jogo, já depois do empate com um golaço de Neres, João Mário bateu o penálti que deu a vitória ao Benfica, que sofreu muito para contrariar o mecanismo defensivo do Vizela, uma equipa que teve nos pés de Kiko Bondoso a felicidade. Ou quase

Hugo Tavares da Silva

PATRICIA DE MELO MOREIRA

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E novamente ele chegou com inspiração/
Com muito amor, com emoção, com explosão em gol/
Sacudindo a torcida aos 33 minutos do segundo tempo
Depois de fazer uma jogada celestial em gol

O “Fio Maravilha” cantarolado por Jorge Ben Jor era sobre João Batista de Sales e um golo marcado precisamente ao Benfica, mas esta noite pode ser sobre David Neres. O canhoto é especial. Teimam em bater na tecla da incerteza, que talvez não seja consistente, que talvez se confunda, que talvez. Esta noite, depois de bailar à frente de um defesa do Vizela, resgatou o apagado Benfica de um buraco com um golaço. Após o empate, o competente Vizela manteve-se certinho, mas um penálti nos últimos segundos ditou a quinta vitória para o líder do campeonato (2-1).

O poste da baliza do Vizela tilintou logo aos 10’, depois de um cruzamento de David Neres encontrar a cabeça de Gonçalo Ramos. Nessa jogada, Gilberto, que cumpriu esta noite o jogo 50 com a camisola encarnada, estava colado ao avançado, na área. Ou seja, a fluidez e o entusiasmo mantinham-se. Mas cedo se percebeu que o Benfica ia ter um problema. Os visitantes, orientados pelo carismático Álvaro Pacheco, tapavam bem os buracos pelo corredor central.

Os da casa iam mantendo aquela frescura clássica na tentativa da recuperação de bola, mas talvez fosse faltando alguma para encontrar espaços por dentro. É que são necessárias pernas e cabeças frescas para a criatividade surgir. Rafa, quando encontrado, ia perdendo muitas bolas, não estava fino tecnicamente, muito menos nas decisões. Enzo Fernández e Florentino Luís mantinham aquele papel protocolar de começar as jogadas e fazer coberturas, salpicadas por inúmeras recuperações depois. David Neres estava mexido, João Mário continuava a maravilhar com aqueles pés de veludo.

O Vizela vivia organizado, não demasiado atrás no terreno, confiando no acerto dos defesas Tomás Silva, Bruno Wilson (neto de Mário Wilson e substituído ao intervalo por Ivanildo Fernandes), Anderson e Kiki Afonso. Não estava muito desconfortável, apesar de alguns momentos mais fortes do Benfica. Guzzo e Kiko Bondoso iam exibindo muito valor no interior daquelas botas. Milutin Osmajic começou de início para ser a referência do ataque. E foi mesmo este avançado montenegrino que calou o Estádio da Luz, aos 20’. Depois de mais um ataque estéril do Benfica, a bola encontrou a felicidade nos pés bondosos de Kiko e este, com um passe excelente entre Otamendi e António Silva, isolou Osmajic, que bateu na bola para o lado de Odysseas Vlachodimos. Normalmente diz-se que a bola não pode entrar por ali…

Gualter Fatia

O Benfica tinha mais de 70% de posse de bola naquela altura, mas apenas dois remates. Não conseguia criar, imaginar jogadas, apesar do jogo com alguma qualidade. Mas o Vizela ia controlando, empurrando o adversário para as linhas. A Luz reagia, tentava passar a mão pela cabeça dos futebolistas e convencê-los de que estava tudo bem. O poste voltou a estalar, após bola parada de João Mário, valeu a sacudidela de Buntic.

O segundo tempo não trouxe um Benfica particularmente mais afinado, muito menos sabedor das melhores rotas para a baliza alheia. Os cantos, sim, continuaram. E surgiram os remates de longe e os cruzamentos de qualquer maneira. O Vizela, que sabe sair em contra-ataque com uma qualidade admirável, até criou mais perigo do que na primeira parte, por Osmajic, em dose dupla. Também Buntic fechou a porta a Gonçalo Ramos, que voltou a ficar perto do golo.

À passagem do minuto 67, quando a desinspiração coletiva era uma forma de viver perigosamente, Roger Schmidt apontou para a frente. Fredrik Aursnes entrou por Enzo Fernández e Florentino deu lugar a Petar Musa. Mas os cruzamentos, lá está a tal ratoeira criada por Álvaro Pacheco e companhia, a única forma de ameaça, saíam desafinados, tortos, transpiravam desilusão.

Mas os craques existem para resolver problemas: caro leitor, pode saltar para o primeiro parágrafo e regressar. Bem-vindo de volta. Como algum sábio disse, o golo é o melhor preparador físico que existe, então o Benfica voltou a crescer depois do golaço de Neres e estava mais leve, embora nem por isso super fino. Mas a Luz acreditava. Em vão… quase.

É que, depois de Gonçalo Ramos ser expulso por simulação de grande penalidade, um remate de Rafa encontrou o braço de um defesa do Vizela e o árbitro marcou penálti. O lance, que parecia duvidoso, não foi questionado pelo VAR e o Vizela estava prestes a sofrer um golpe que não merecia. João Mário assumiu mais uma vez e enganou o guarda-redes, oferecendo a quinta vitória em cinco jornadas para o Benfica. Na festa, com os adeptos a uivar de alegria, o médio tirou a camisola e viu o segundo amarelo.