Tribuna Expresso

Perfil

Benfica

Afinal, foi a bela tarde de João Mário que ficou para a coleção

O Boavista teve grandes momentos, sobretudo nos inícios da primeira e segunda partes, mas o Benfica soube encontrar o caminho para a baliza e morder na altura certa. João Mário, com a braçadeira de capitão na ausência de Otamendi, marcou dois golos na vitória no Bessa, por 3-0, a sétima em sete jogos

Hugo Tavares da Silva

Octavio Passos

Partilhar

Os futebolistas são quase sempre os mesmos. Às vezes estão melhor, outras vezes caem um pouco, às vezes a vida pessoal nem corre bem, noutras estão a voar. Há sempre quem sentencie um final precoce para um certo jogador de quem tanto esperavam. É quase sempre precipitação. Os futebolistas são os mesmos, os contextos contam e alteram fados e narrativas. João Mário é um bom exemplo disso. Viu chegar à Luz um treinador que compreende o futebol que leva nas botas (e na cabeça, claro) e, mesmo numa posição diferente (que lhe dá mais tempo e liberdade), vai sendo muito influente.

Esta tarde, o médio até recebeu a braçadeira de capitão, uma imagem tão difícil de conceber há uns anos. Aquele pedaço de tecido conta algumas histórias, nomeadamente sobre a existência de uma voz importante no balneário, seja falando, seja atuando. João Mário já era isso tudo na formação do Sporting, os relatos vão sempre nesse sentido. Era quem puxava as orelhas aos colegas, era quem cobrava. Era adulto, treinava bem. Uma vez, perante um cenário negativo, disse ao treinador Luís Gonçalves para ele não se preocupar, que eles resolveriam a coisa lá dentro. As palavras foram: "Não se preocupe que eu sei o que temos de fazer. Vamos dar a volta a isto". E assim foi.

O Boavista entrou melhor do que o Benfica esta tarde, no Estádio do Bessa, e só quando a bola chegava aos pés de João Mário os benfiquistas sentiam o lado bom do tempo e do jogo. Ativista contra a precipitação, o médio, que beneficia de uma vida menos afobada que existe num meio-campo a dois, é um homem do mais fiável que há na tarefa de manter a bola como a ferramenta mais redonda alguma vez vista.

Quando já estava 1–0, depois de um golo de Felipe Morato, a seguir a um canto de David Neres, João Mário teve uma chance escandalosa para fazer o segundo da tarde. António Silva, um estreante nestas andanças aos 18 anos (e amarelado desde os 8’, revelando maturidade depois), bateu longo e Rafa soube amparar com os pés o que parecia ser uma granada caída do céu. Depois, generoso, ofereceu a alegria a João Mário. O número 20 atirou ao lado, chocando-se. As mãos, claro, foram à cabeça. “Foi mais uma para a coleção”, diria no final, com fair-play.

O momento em que o estreante António Silva vai ver o cartão amarelo

O momento em que o estreante António Silva vai ver o cartão amarelo

Octavio Passos

Mas a redenção – goleadora porque, em termos de futebol, nada tinha a dever a ninguém – chegou mesmo, já na segunda parte. Primeiro, aos 67’, aceitou o trabalho de Petar Musa, que funcionou como pivô já dentro da área, batendo depois na baliza sem grandes cálculos. Depois, de grande penalidade, novamente com Musa em destaque (sofreu a falta de Vicent Sasso). João Mário assumiu e golo, 3-0. Celebrou como celebra quem tem o sangue quente, apesar de ser sempre o mais sereno de todos, até a voz fala sobre um homem seguro e tranquilo.

Apesar de tudo, o marcador tresanda a exagero. O Boavista – montando e desmontando um 3-5-2 e 5-3-2 – teve momentos muito interessantes, principalmente saídos dos pés de Kenji Gorré, mas era tudo graças à agressividade coletiva. Os axadrezados também contaram com as participações valiosas de Pedro Malheiro, Seba Pérez, um homem que já jogou na Bombonera, e Salvador Agra.

Foram uns primeiros 15 minutos importantes na primeira parte, derretendo todos os preconceitos que ainda existem em relação ao treinador Petit. As linhas estavam juntas, não havia espaço para Rafa, por exemplo. As dinâmicas eram interessantes, a troca de bola, às vezes ao primeiro toque, seduzia, era líquida como um belo néctar. Sopuruchukwu Onyemaechi, com um cruzamento malandro torto ou desviado, obrigou Odysseas Vlachodimos a fazer uma grande defesa.

Depois de cair, de perder as rotas para a área do Benfica e de já dar mais espaço aos rivais, os futebolistas da casa voltaram a encontrar-se no início da segunda parte, fruto de uma pressão mais ambiciosa e subida, obrigando Schmidt a colocar em campo pernas frescas (fatura da Champions?), como Alexander Bah, Diogo Gonçalves e Petar Musa. Os atrevidos da frente de preto e branco continuaram a dar cabo do juízo aos de vermelho, encontrando o maior obstáculo em Florentino Luís, em grande destaque esta tarde (e os números comprovam-no). Enzo Fernández manteve o nível, embora menos influente no pensamento ofensivo.

Perto do apito final, de um jogo com pedalada e muitos duelos, Mihailo Ristić e Fredrik Aursnes, que estavam no banco (onde não estavam Weigl e Yaremchuk), saltaram para o relvado e estrearam a camisola do Benfica. Os lisboetas estavam prestes a carimbar a sétima vitória em sete jogos. Enzo Fernández foi o substituído para entrar o noruguês e, mais uma vez, tal como contra o Dynamo Kiev, voltou a ser ovacionado. O argentino, sorrindo, abraçou Roger Schmidt como se abraça um familiar de quem se gosta.