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Que nem uma buganvília, o Benfica quis trepar pelo meio do campo

Havia o nome de Chalana nas costas de todos os jogadores do Benfica e o seu número 10 no peito de todas as camisolas, para onde Gonçalo Ramos apontou quando fez o único golo (0-1) da partida em Leiria, com o Casa Pia, que dificultou muito a vida a quem insistiu, muitas vezes, em tentar desequilibrar o adversário com combinações por dentro. E só o conseguiu realmente quando passou a ter Alexander Bah por fora

Diogo Pombo

PAULO CUNHA/Lusa

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Cabe um arredondamento de 150 quilómetros entre Pina Manique e o Dr. Magalhães Pessoa e poderia ser tão-só um quarteirão, uma rua a separá-los, mas uma casa não é um casario, existe apenas uma e o singelo clube do campeonato que se nomeia com “Casa” tem a sua nas extremidades de Lisboa, até onde alcança a freguesia com Benfica no nome e assim estabelecemos as coincidências que são peças da cremalheira responsável por termos um jogo de futebol onde ninguém joga em casa. É um encontro de descasados dos seus albergues.

O terceiro clube com pior média de assistência, a época passada, na II Liga, pede emprestado um recinto para o encher e eis que na relva esfarelada do estádio de Leiria entram intenções dominadoras do Benfica, o novo Benfica de Roger Schmidt que à quarta partida oficial fideliza-se mais ainda às intenções que o treinador escancara na forma como a equipa se comporta: alas projetados à vontade, os dois médios alinhados a construírem as saídas num quase quadrado formado com os centrais e preferência por passes curtitos e para a frente, com jogadores próximos entre linhas e em buscar de um terceiro que esteja livre nas triângulações.

O Benfica é uma tentativa constante e ambulante de combinações por dentro, sem o lesionado David Neres essa tendência ruge para rebentar tímpanos, Diogo Gonçalves é um corredor com bola no pé mais do que um driblador que aglutine atenções. Não havendo laterais que desequilibrem mais pela ameaça de fintas - Grimaldo tira adversários da frente se vindo de trás, Gilberto é simplifica as ações quando ataca - do que pelos posicionamentos que adotam nos últimos 30 metros, a equipa torna-se mais previsível.

Não sendo uma crítica, é a uma constatação e também é a vida, o Benfica joga com as características dos jogadores que tem para existirem no sistema de Schmidt e, em Leiria, isso dá-lhe mais bola, maior tempo passado no meio-campo contrário e éne jogadas forçadas por dentro, assim também tem de ser porque o Casa Pia defende a área com uma linha de cinco para controlar a largura do campo e forçar, ainda mais, os encarnados a irem pelo coração do campo.

A força veloz e criativa em quase todas as tentativas é Rafa, o acelerador que aguarda por bolas nas costas de Ângelo Neto e Afonso Taira, os requintados médios do Casa Pia que se desdobram em faltas com o tempo e à medida que o Benfica lhes morde todas as receções quando os jogadores entendem a preferência dos defesas lhes passarem todas as bolas recuperadas para serem eles a mandarem Saviour Godwin correr. Ter o rápido nigeriano a perseguir bolas no centro-esquerda do campo, nas costas de Otamendi e no espaço vagado pelas subidas de Gilberto, é um plano do qual abusa e só retira dividendos palpáveis aos 44’, quando o nigeriano rematou às mãos de Vlachodimos em vez de cruzar.

Paulo Cunha/Lusa

Até ao intervalo, o resto é resistir ao empurrão contínuo do Benfica que faz o Casa Pia escolher concentrar todos os jogadores atrás de onde mora a bola, tentando intercetar as pequenas tabelas e combinações em que Rafa fareja por aberturas: aos 27’, recebe na área com um rodopio que o faz dividir uma bola com o guarda-redes e depois cruzar para Gonçalo Ramos desviar a bola que o central João Nunes corta na linha da baliza; já nos descontos, tabela com Diogo Gonçalves e o remate ricocheteia no corpo de um adversário. A ditadura do número de pernas aglomeradas ao centro bloqueou tudo o resto.

Chalana algum era capaz de agitar a ordem imposta no jogo, cada futebolista do Benfica tinha nas costas da camisola o apelido da lenda partida dias antes, a homenagem estampada foi audível no aplaudo forte e contínuo que uniu o estádio durante o décimo, mas nenhum jogador do Benfica, porque seria impossível, sequer roçou uma réplica da arte enganosa de Chalana. Nunca seria Alexander Bah a aproximar-se da façanha.

Foi, contudo, o lateral dinamarquês a logo dar um par de esticões pela direita na segunda parte, ele é a vertigem atacante e a velocidade que Gilberto não tem no corpo, alguém que tanto acelera sozinho para se livrar de um adversário rumo à linha como combina com alguém por dentro e o 1-0 do Benfica, aos 53’, não sendo de Bah, tem a génese nele: forçou uma jogada pelo centro, descobriu João Mário à beira da área, o médio lançou Rafa e a aceleração final do português deu para cruzar a bola que Gonçalo Ramos pôs na baliza quando já era uma carambola vinda de um ressalto.

O golo desengatilhou o resultado embora não a partida. Os melhores momentos do Casa Pia acabariam pouco minutos volvidos, a elogiável resistência à pressão do central canhoto Zolotic para ligar passes aos médios foi a base de um par de lançamentos de Godwin que terminaram na área, mas não mais se veriam. E o Benfica ainda tentou, Rafa rematou à entrada da área (75’) depois de João Mário desequilibrar uma jogada depois de Yaremchuk, na passada, de primeira e com o pé esquerdo, rematar (72’) outra bola cruzada por Bah. À falta da vida que David Neres vive para o drible, o dinamarquês será a ameaça mais imprevisível da equipa a partir de uma ala.

Quando o jogo, mesmo com a magricela vantagem, já se embalava naquele sonambulismo de todos parecerem aceitarem o desfecho, Otamendi encavalitou-se em Anderson Cordeiro para ver o segundo cartão amarelo e ser expulso. Nada alteraria o resultado a que se chegaria a tantos quilómetros do estádio que habita na Rua das Buganvílias, é aí que o Casa Pia mora, no troço batizado uma espécie trepadeira que se dedica a escalar o que encontra no caminho e a vitória que Gonçalo Ramos dedicou “ao mister Chalana, não esquecer” e a derrota que João Nunes aproveitou para lembrar “o professor Chalana” sinalizaram a alma que fez os jogadores do Benfica irem trepando pela sua alma até ali.