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Enzo é a bússola do futebol (nem sempre) a todo o gás

O Benfica começou o campeonato com uma goleada, por 4-0, contra o Arouca, no Estádio da Luz. Gilberto, Enzo Fernández e Rafa fizeram os golos

Hugo Tavares da Silva

MB Media

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É certo que ter pernas numa fase tão inicial da época ajuda. Muitos minutos, quando se é bom, traduzem-se em obediências ditatoriais da bola, que, derretida, acaba por fazer o que lhe pedem com boa vontade. Enzo Fernández, que corre como os jovens apaixonados correm, é um argentino clássico da cartola às botas. É bom de bola e competitivo.

Olvidando chover no jardim molhado do estilo e do talento, Enzo Jeremías Fernández é sobretudo influente nesta equipa de Roger Schmidt. À passagem do minuto 88, a GoalPoint dava conta de que, com 133 ações com bola (seriam 144), superara o record da temporada 2021/22 (Neto vs. Tondela). Preenche uma área importante do meio-campo, pressiona, sabe passar e chega à frente. Escolhe caminhos e timings, tempos.

Esta noite, na vitória contra o Arouca (4-0), marcou o segundo golo da temporada. O rapaz, de apenas 21 anos, encheu o pé depois de um ressalto, numa armadilha que já trataremos de esmiuçar mais à frente. Quando Jorge Palma escreveu “Jeremias, O Fora Da Lei”, em meados da década de 80, é pouco provável que tivesse sussurrado uma qualquer profecia, mas a letra tem detalhes que intrigam, como referências várias a “bomba”, “magia da dinamite”, “tesouros e mapas” e até um adequado “nem o próprio inferno o apavora”. A Luz nem precisou de ser inferno.

O Benfica entrou como o treinador quer. Olhos na baliza, combinações, bola a circular rapidamente e movimentos agressivos, de aproximação ou na profundidade. O primeiro golo da noite, que foi também o primeiro do campeonato 2022/23, logo aos 8’, explica bem esta nova ideia que aterrou em Lisboa. João Mário, um libertário pela esquerda, descobriu Rafa. O vagabundo aparentemente feliz lançou Grimaldo na linha e o espanhol cruzou. Ao primeiro poste, desvairado de esperança, surgiu Gilberto, o outro lateral, a cabecear para a baliza, 1-0.

O Arouca ia-se tentando fechar com uma linha de cinco, Arsénio baixava para a defesa. Haveria momentos em que esta linha engordava para seis homens de amarelo, embora nem sempre estivessem recuados e testassem morder a saída de bola dos futebolistas da casa. Os de vermelho iam tendo a bola mais de 70% do tempo, com pouca participação de Gonçalo Ramos, mas fazendo os visitantes sofrer um pouco. Os primeiros 20, 30 minutos foram diabólicos, intensos e exigentes. Antony, um jovem atrevido e bom de bola, tentou algumas saídas. Yaw Moses teria também alguns momentos interessantes, com uma pedalada notável. O lateral Quaresma, que seria expulso antes do intervalo, arquitetou o melhor contra-ataque, a bola quase serviu para Rafa Mújica empatar, mas valeu Gilberto.

Gualter Fatia

O defesa direito do Benfica parece talhado para ser o perfeito, perfeitíssimo, sucessor das lengalengas sobre a posição. Tal como André Almeida, é mais admirado pelos adeptos do que pelos analistas, que adivinham todos que no futuro o lugar será de Alexander Bah, que fez o passe para o 4-0.

Já sem João Mário, que saiu tocado por Chiquinho, o ritmo baixou bastante, e baixaria ainda mais na segunda parte. O 2-0 chegou depois de Rafa recuperar a bola, comer uns metros, superar dois rivais pelo meio deles, qual Nazário. O cruzamento só encontrou as árvores com t-shirts amarelas, mas a bola, caprichosa, estava mais interessada nas gargantas dos que se sentavam no anel à volta do relvado, então sobrou para Gonçalo Ramos. O avançado cabeceou à trave, pingou para Rafa encostar para a baliza deserta. O avançado, que parece ter um contexto favorável para voltar a sonhar com a presença no Campeonato do Mundo, fez o 59º golo em 229 jogos pelo Benfica.

Ainda antes dos pulmões do árbitro se encherem para soprar o apito e autorizar o descanso dos músculos, o VAR convidou-o a corrigir uma decisão, expulsando o incrédulo Quaresma, que derrubou Rafa, quando este, de acordo com a equipa de arbitragem, seguia supostamente isolado para a baliza. O golo de Enzo surgiu pouco depois. Gilberto cruzou, a defesa cortou e, caindo do céu como uma lágrima alegre de uma nuvem, a bola foi atingida pelo pé direito de Enzo, que imitou o que já fizera com o Midtjylland (4-1).

Contra 10 e com muitas mexidas, primeiro do Arouca, e depois de Roger Schmidt, que já ia pensando na segunda mão da pré-eliminatória da Liga dos Campeões, o jogo caiu num quase obrigatório desinteresse. Havia uma barreira de muitos homens à frente da baliza de Arruabarrena, havia outra equipa com bola a procurar espaços, sem urgência. O treinador alemão foi questionado, na véspera, sobre se tinham treinado jogar contra blocos baixos, algo que o golo cedo descomplicou. Schmidt confirmou e convocou as “soluções”, a “criatividade e a “qualidade individual”.

André Bukia entrou bem, naquele jeito desconcertante e veloz. Deixar Weigl (entrou por Florentino) e companhia desconfortáveis era já uma vitória, o jogo estava sentenciado.

Os cruzamentos têm sido uma arma deste Benfica e tresanda a armadilha. É que não só há qualidade técnica para encostar, como depois há jogadores a cercar a área, criando problemas com a tal segunda bola. O golo de Enzo foi assim, mas muitas outras jogadas foram recuperadas e redesenhadas para se aproveitarem daquele sereno caos. É uma segunda vaga venenosa, talvez planeada. Porventura para os cruzamentos e afinação de cumplicidades, Roman Yaremchuk e Henrique Araújo entraram aos 72’. Saíram os discretos Ramos e Neres, que teve ali uma ou outra tenra sambice, mas sem a influência do jogo anterior.

O quarto golo da noite chegou a três minutos dos 90, por Rafa. Yaremchuk combinou com Bah. O lateral bateu bem na bola, o cruzamento foi excelente, e gozou do bloqueio de Araújo ao primeiro poste, permitindo tempo e espaço a Rafa. E o futebolista que não sorriu depois de fazer um golo maradoniano contra o Estoril, na época passada, lá sorriu outra vez.