Tribuna Expresso

Perfil

Benfica

Benfica. Chamavam-lhe “Capitão” e nunca deixaram de o tratar assim: Veríssimo, o rapaz “certinho” que não gostava de levar cuecas

Quem é, afinal, Nélson Veríssimo, escolhido por Rui Costa para treinador interino do Benfica, após já ter sido a opção de Luís Filipe Vieira para trabalhar com a equipa principal após a saída de Bruno Lage? A Tribuna Expresso foi ouvir quatro ex-colegas do homem que estava com a equipa B e tem agora, outra vez, a missão de estancar a agonia dos adeptos encarnados. Todos eles elogiam o antigo central de quem “é impossível não gostar”. Republicamos este texto, originalmente de julho de 2020, devido à saída de Jorge Jesus do Benfica que provocou a segunda presença de Veríssimo na equipa principal do clube da Luz

Hugo Tavares da Silva

Gualter Fatia/Getty

Partilhar

Parece que esteve sempre ali e, ao mesmo tempo, que sabemos tão pouco sobre ele. Nélson Veríssimo, que tem qualquer coisa como 15 anos de Benfica, é o homem que, após saída de Bruno Lage, vai manter a bola no ar até ao final da época, aliviando a tensão que se viveu nos últimos tempos e estancando o jorrar desenfreado da agonia que se adivinha.

A correção é inegociável; a exigência, idem. Pelo menos é isso, entre outras virtudes, que revelam as conversas da Tribuna Expresso com quatro ex-companheiros do novo (e novamente) treinador interino do Benfica. “É um capitão”, repetem-se.

Sousa, que jogava pela direita, cruzou-se com Veríssimo na formação dos encarnados. “Ele é um ano mais velho do que eu. Sempre foi um capitão de equipa. Tem uma capacidade de liderança interessante, até pela forma de estar”, começa a contar. “O Veríssimo sempre foi aquele tipo de jogador muito certinho, nunca fugia daquilo que era o correto e certo, por isso era um dos capitães. Ele era júnior de primeiro ano e era capitão de equipa dos juniores.” A postura seduzia: era dedicado, profissional, queria muito. Era sério. Os elogios não conhecem travão. “Grande capacidade de liderança, forte de caráter. É boa pessoa, uma pessoa excelente.”

José Calado, que começou a jogar com Veríssimo na Luz em 95/96, assina por baixo, definindo-o como alguém “muito humano”. O médio tinha 22 anos, o central tinha 19, estava já no segundo ano de futebol sénior. “Desde muito jovem sempre foi uma pessoa extremamente racional, super profissional e um indivíduo muito estudioso. Era muito ligado aos estudos. Interessava-se por todos os aspetos do jogo. Surpreendeu algumas pessoas com a maturidade que já tinha com tão tenra idade. Ele já era competente tão jovem e com um espírito tão aberto e profissional que não me surpreendeu que tenha chegado a treinador do Benfica”, admite o ex-futebolista, agora comentador de televisão.

Voltando à formação, Tiago Lemos cruzou-se com Veríssimo durante muitos anos, embora, tal como Sousa, contando com menos um ano no BI. “Ele era o típico capitão. Muito responsável, muito sério, muito regular. Era assim dentro e fora do campo. Isto descreve o Veríssimo. Parecia sempre o mais velho, sabes? (risos). A malta com brincadeiras e palhaçadas e ele, no canto dele, tranquilo. Era muito trabalhador e muito responsável.”

Se, depois do Benfica, Tiago Lemos seguiu para o Estoril Praia, ou para o seu “Estorilinho”, como diz carinhosamente, Veríssimo deu continuidade à carreira no Alverca, por empréstimo. Alguns anos depois regressou definitivamente àquele emblema, onde subiu e desceu de divisão, e aí partilhou balneário com Rui Júnior, um lateral canhoto. “Era o capitão. Temos de lhe chamar ‘o capitão’, sempre o tratámos assim”, resume Júnior. “Como pessoa é espetacular, não tenhas dúvidas. Só vão dizer coisas boas dele. Era o primeiro a chegar e o último a sair da cabine, isso era garantido. Era sempre atencioso, também com os novos, recebia-os muito bem. Era muito, muito importante na estrutura do Alverca.”

Júnior, que se ia perdendo encontrando qualidades e mais qualidades sobre o homem que “era mesmo maluco por treinar”, lembrou-se de uma história num treino do clube do Ribatejo e não segurou a gargalhada. “Nos treinos não se podia facilitar nem um bocadinho. Não sei se te lembras do Rodolfo Lima… Há um treino em que o Rodolfo, que vinha de outra realidade, chega, dá-lhe uma cuequinha e começa a rir. O Veríssimo agarrou-o pelo cotovelo, chamou-o à parte e disse: ‘É a última vez que fazes isso, a próxima vez que te rires vais ver o que te acontece’”. E Júnior gargalha.

Se era assim como capitão e homem feito, como era aos 19 anos. Bola nos pés de Calado: “Era muito tranquilo. Ao início era muito estudioso, muito ligado aos estudos, porque era o tipo de jogador que tinha noção que se no futebol não houvesse futuro ia agarrar-se aos estudos. Tinha muita maturidade. Soltou-se e ganhou confiança, toda a gente gostava dele. Era difícil não gostar dele. Trabalha bem, bom profissional, respeita os companheiros, é simpático, sabe estar, bem educado… É impossível não gostarem dele. Por isso os mais velhos gostavam dele."

picture alliance

E lá dentro, como era este defesa? “Era regular. Não fazia aquelas exibições por aí além, mas era muito seguro, defendia bem. Como pessoa e como jogador era muito fiável”, resume Tiago Lemos. Sousa, o outro companheiro da formação do Benfica, dá uma ajuda: “Era muito certinho, raramente ou dificilmente cometia erros graves. Tinha a cabeça levantada, não complicava, jogava bem. Era rápido quanto baste. Pautava pela seriedade. Os treinadores confiavam nele, tinha personalidade forte. Não fazia grandes exibições e não fazia exibições fracas, a bitola era média-alta, o que lhe permitiu fazer carreira de primeira liga”.

Calado lembra alguém que não era muito duro e que sabia as suas limitações dentro de campo. “Gostava de jogar o jogo pelo jogo. Era rápido. Tinha a escola do Benfica, de sair a jogar, sempre muito leal com os adversários”. Já Júnior recorda a velocidade e a agressividade do antigo companheiro. “Quanto tinha indicações como ‘este jogador não joga hoje’, não jogava mesmo. O Veríssimo, além de dar aquilo que tem e mais, tinha uma coisa muito boa: respeitava sempre o adversário e isso levava-o a cometer menos erros do que os outros, mantinha o nível.”

O canhoto ex-Alverca conta ainda que há pouco tempo regressou ao clube e por lá viu fotografias do agora treinador do Benfica, até “no autocarro dos miúdos”. Ou seja, “é uma pessoa que ficou, deixou a marca dele”. E no futebol português também: 221 jogos na Primeira Divisão e 149 na Segunda Divisão, pode ler-se neste artigo do “Diário de Notícias” que conta a história do “sexto bombeiro de serviço da história do Benfica”. A estreia no futebol profissional, magicada por Mário Wilson, aconteceu num SLB-Chaves, a 9 de março de 96, numa defesa a quatro com Ricardo Gomes, Hélder e Kenedy. À frente estavam Bruno Caires, Iliev, Dimas, Valdo, Marcelo e João Pinto. Os dois últimos inventaram o 2-0.

E agora, o banco do Benfica. Este treinador, natural de Vila Franca de Xira, começou a saber o que era competir com o FC Porto no futebol profissional em março de 96, na Luz, substituindo perto do fim José Calado. Quase 25 anos depois, quando se adivinha o título do FCP, Nélson Veríssimo tem a missão de apagar fogos, barrar com mel as ligações entre os homens e mulheres daquele clube e serenar a angústia dos adeptos. O objetivo é, portanto, fechar bem a temporada.

“É uma pessoa muito reta, muito séria”, garante Calado. “E ainda bem que está a ter esta oportunidade para mostrar o seu valor. Deve estar a cumprir um sonho ao estar a treinar a equipa principal do Benfica. Deve estar super satisfeito a aproveitar o momento.” Júnior diz que se cheirava à distância que era um líder a sério. "Ao fim de três dias, via-se logo que era um líder. Tinha muito boa ligação, no Alverca, com o treinador, jogadores e presidente. Não era um grupo fácil, mas ele conseguiu sempre gerir da melhor maneira."

Sousa vê a decisão de Luís Filipe Vieira, um ex-presidente do Alverca que partilhou esta vida e o metro quadrado com Veríssimo, com otimismo, mas deixa um aviso: “Ser bom treinador e boa pessoa são coisas distintas. Às vezes, um treinador não pode ser muito boa pessoa, no sentido de ser amigo, preocupado… tem de o fazer, mas sempre com grande capacidade de liderança, para os jogadores saberem quem manda. O Veríssimo tem isso. Nunca assumiu o papel de treinador principal porque, julgo, se sente bem como adjunto. Se ele tiver de terminar a temporada, tem qualidade e conhecimento para o fazer. Acaba por ser um treinador que viveu o Benfica muito, muito tempo, durante todo o processo de formação. Tem muitos anos de Benfica, quer como jogador quer como treinador. Sabe o que é a mística, o que é o balneário…”