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As Odysseas do sofrimento valem milhões

O Benfica está na fase de grupos da Liga dos Campeões, após empatar (0-0) contra o PSV. Em Eindhoven, jogou desde os 32 minutos com 10, por expulsão de Veríssimo, mas uma exibição de sacrifício, sustentada por defesas cruciais de Vlachodimos, garantiu à equipa de Jesus o decisivo encaixe financeiro da Champions

Pedro Barata

Christian Kaspar-Bartke/Getty

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O futebol, como qualquer jogo, é para ser jogado com prazer, para desfrutar. No entanto, os infinitos caminhos da bola levam a que, por vezes, o caminho para a felicidade dentro do terreno de jogo passe mais pelo cerrar de dentes e pela entrega do que pelo requinte técnico e magia com o esférico.

Na noite de Eindhoven, o Benfica viu-se forçado, muito cedo, a ir ao dicionário da competitividade buscar as virtudes que lhe garantiram um empate que, desde já, marca positivamente a época dos encarnados. O nulo contra o PSV explica-se por esse saber sofrer e pelas defesas do inspirado Odysseas Vlachodimos e permite ao Benfica estar na fase de grupos da Champions pela 16.ª vez na sua história, assegurando ao clube da Luz um encaixe de muitos milhões que as finanças do clube agradecerão.

Jorge Jesus tinha prometido um Benfica de olhos postos na baliza adversária, dado que o poderio ofensivo do adversário augurava golos, mas o nulo espelha um duelo que, muito cedo, se tornou num exercício de resistência da equipa portuguesa. E isto porque, aos 32 minutos, Lucas Veríssimo viu o segundo cartão amarelo e foi expulso, levando os encarnados para uma hora de organização defensiva contra o ataque posicional do conjunto dos Países Baixos. E a missão foi cumprida. Pela 7.ª vez na história, Portugal terá três equipas na fase de grupos da Champions.

Mas a abordagem inicial dos visitantes esteve longe de se basear somente na crença ou noutras virtudes semelhantes. JJ surpreendeu ao lançar Taarabt, atuando com três médios (o marroquino mais João Mário e Weigl) ao invés da habitual dupla, ficando Rafa e Yaremchuk na frente de ataque. E isso, a juntar a um Benfica bem mais pressionante e agressivo sobre a bola, levou a uma meia-hora inicial na qual a turma portuguesa não foi surpreendia por bolas lançadas nas costas da sua defensiva ou por rápidas combinações, tal como havia sucedido no duelo do Estádio da Luz.

A aposta de Jesus conseguiu minimizar uma possível entrada forte dos da casa e o resultado foi um começo de partida com muita pressão e contra-pressão, perdas de bola constantes e nenhum remate enquadrado com a baliza nos primeiros 20 minutos. Aos 28’, Taarabt, a tal surpresa benfiquista na equipa titular, foi o primeiro a sair do colete-de-forças que ambas as equipas colocavam no meio-campo, com um ziguezaguear que levou a bola até ao último terço onde, após alguma insistência, Rafa viu o golo ser-lhe impedido pela muralha defensiva do PSV.

O Benfica dava uma imagem de alguma tranquilidade... até ao minuto 32, que poderia ter marcado negativamente os próximos meses do clube.

Lucas Veríssimo parecia ser, desde o começo, o central mais desconfortável com a pressão da turma de Schimdt. Aos 8’, o brasileiro perdeu a bola para Gakpo e viu-se forçado a fazer falta. Primeiro amarelo. Volvidos 24 minutos, o Veríssimo saltou com o braço direito aberto na direção de Gakpo, o árbitro considerou motivo para segundo cartão amarelo e expulsou o defesa.

O plano de Jesus ressentiu-se, aquela pressão coordenada não estava preparada para continuar a ser colocada em prática com um homem a menos. E Madueke, o irrequieto extremo de fita no cabelo e ginga nos pés, teve o espaço que, até aí, não tinha encontrado. Nos minutos finais do 1.º tempo, o jovem esteve por duas vezes perto de marcar, mas a falta de pontaria e Vlachodimos levaram o duelo para o intervalo com o nulo. Foram os minutos de maior aperto para as águias.

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Jesus trouxe a equipa para o 2.º tempo com os ajustes necessários para lidar com a inferioridade numérica. Se nos derradeiros instantes da etapa inicial o Benfica se defendeu com uma espécie de 4-4-1, os encarnados atuaram toda a 2.ª parte com um 5-3-1 que apresentava três centrais (primeiro Gilberto e depois o regressado Vertonghen juntaram-se a Otamendi e Morato) e tentava que a inferioridade de um homem se sentisse mais no ataque, mas menos a defender

O PSV teve muita bola (terminou com 73% de posse), rematou muito (21 remates, oito deles à baliza, contra somente quatro do Benfica, e apenas um teve de ser detido pelo guardião rival), mas foi esbarrando no misto de competência na organização defensiva e capacidade de sofrimento das águias.

Ah, e em Odysseas Vlachodmimos.

O grego, que já tinha tirado o golo a Madueke no 1.º tempo, impôs-se com segurança a remates de fora da área de Ramalho ou Sangaré e, quando o guardião já parecia batido, a sorte esteve com o Benfica: aos 61’, o goleador israelita Zahavi, servido por Gakpo (a melhor unidade do PSV em toda a eliminatória), atirou à barra quando tinha a baliza à mercê.

As virtudes da exibição do Benfica veem-se se tivermos em conta que Grimaldo, João Mário ou Weigl, homens de boa técnica e que sabem tratar a bola, se evidenciaram mais pelo que correram, pelos espaços que ocuparam sem bola e até pelos carrinhos que fizeram. O Benfica estava a visitar a casa de um clube fundado em 1913 para que os trabalhadores da Phillips pudessem praticar atividade física e os encarnados dedicaram-se a fazer uma exibição operária, que os levou até aos milhões da Champions.

Mas esse encaixe não teria sido possível sem a inspiração de Vlachodimos. Ao minuto 85, na última grande oportunidade do PSV, o grego fez uma dupla defesa de alto nível, tirando o golo a Vertessen e dando o bilhete para a liga milionária ao Benfica.

Os festejos de Jorge Jesus no final da partida, correndo para dentro de campo para se abraçar aos seus jogadores, evidenciam bem a importância desta eliminatória para toda a temporada do clube. Numa noite em que o Benfica começou a ser inteligente e se viu forçado a ser solidário, Odysseas fez com que todo o sofrimento valesse a pena. Se, há um ano, a campanha de regresso de Jesus a Portugal começou com uma desilusão em Salónica, agora a segunda época da era 2.0 de JJ na Luz arranca com um rasgado sorriso.