Perfil

Benfica

Gakpo escaldado do Benfica não tem medo

Encarnados foram eficazes na 1.ª parte e desapareceram na 2.ª. E com isso permitiram a um até então previsível PSV crescer, reduzir para 2-1 por Cody Gakpo - o melhor dos neerlandeses - e deixar tudo em aberto para uma 2.ª mão que será, no mínimo, perigosa. A entrada na Champions vai dar trabalho

Lídia Paralta Gomes

ANP Sport/Getty

Partilhar

Se há frase futeboleira que nasceu cliché, vive cliché e vai morrer cliché (isto se morrer, claro) é aquela que nos fala de jogos com “duas partes distintas”, como se todos os jogos não tivessem sempre uma 1.ª e uma 2.ª parte, ou seja, partes distintas per se.

Mas concordemos que estamos a falar de “partes distintas” no sentido figurado, da forma como uma equipa se apresenta em campo. E nesse sentido, o Benfica - PSV foi um jogo de “duas parte distintas” para os encarnados, na medida em que na 1.ª parte o Benfica esteve em campo e na 2.ª parte não esteve, o que, aqui entre nós, quase justifica a utilização de um cliché num texto.

Porém, é isso mesmo. Enquanto esteve em campo, o Benfica foi uma equipa de Champions, a equipa que já devia estar na fase de grupos da liga milionária como disse Jesus na antevisão: perante um adversário irreverente no ataque, com os exageros próprios da juventude, os encarnados foram uma equipa adulta, que é como quem diz eficaz nas poucas oportunidades, a responder com pragmatismo ao brincanaareismo neerlandês aproveitando o espaço entrelinhas e as costas da linha defensiva, que eram precisamente os pontos a explorar neste PSV.

O primeiro golo, logo aos 10 minutos, nasce de um desequilíbrio criado por Morato, num passe vertical que lançou Pizzi, que deu por sua vez para Yaremchuk. O ucraniano, que se habituou agora a estar em todos os golos do Benfica, viu bem a diagonal de Rafa e meteu-lhe a bola a jeito. O internacional português recebeu com o pé direito, deu um pequeno toque com o esquerdo e estava feito o 1-0. Em poucos minutos, o Benfica utilizava com eficácia o espaço que uma estendida linha média do PSV deixava no meio.

PATRICIA DE MELO MOREIRA/Getty

Depois do golo o Benfica ofereceu a bola ao PSV, levou o jogo para um registo em que os neerlandeses não estão totalmente confortáveis e os malabarismos de Madueke iam deixando Grimaldo com a cabeça em água, mas sem grandes efeitos práticos. Zahavi marcaria aos 28’, mas em fora de jogo, num dos únicos momentos da 1.ª parte em que o Benfica foi surpreendido nas costas e Vlachodimos defendeu aos 34’ um remate de Cody Gakpo depois deste ganhar a Morato e Otamendi. Mas, olhando para a floresta e não para os pequenos arbustos, o PSV não fazia perigar a vantagem do Benfica.

E tudo pareceu ficar ainda mais fácil quando aos 42’, num canto, a bola sobrou para Weigl e o alemão fez o 2-0, novamente com Yaremchuk metido ao barulho - ganhou o lance no coração da área face a uma catrefada de jogadores do PSV.

A eliminatória parecia, portanto, bastante bem encaminhada.

Acontece que os jogos ainda têm duas partes e na 2.ª parte o Benfica resolveu não aparecer. Logo aos 48’, Vlachodimos salvou o que seria o 2-1 com uma grande defesa a um cabeceamento de Van Ginkel e rapidamente o jogo ganhou um novo protagonista: Cody Gakpo. Poucos minutos depois da oportunidade de Van Ginkel, o extremo conduziu da lateral para o meio, a defesa do Benfica ficou a controlar à distância e quando reagiu já era tarde. O remate à entrada da área bateu no pé de Otamendi e de forma caprichosa a bola foi entrar junto ao poste esquerdo da baliza do Benfica, enganando Odisseas.

João Mário não estava, ao ataque não chegava a bola e o Benfica respondeu ao golo dando ainda mais espaço e iniciativa ao PSV. Gakpo tornou-se então num vagabundo difícil de controlar, aos 63’ fez o passe para isolar Gotze, com o alemão a falhar o remate quando estava isolado, e aos 76’ fez Vlachodimos brilhar com mais um remate perigoso à entrada da área. Antes disso, já o grego havia salvado o Benfica ao travar um desvio acidental de Lucas Veríssimo e se os encarnados vão para Eindhoven com uma vantagem de 2-1 (perigosa, mas ainda assim uma vantagem), bem podem agradecer ao seu guarda-redes.

Físico ou por inoperância tática, o colapso do Benfica deveria preocupar Jorge Jesus, que não se pode dar ao luxo de falhar a Champions pelo segundo ano consecutivo. Esta quarta-feira, na 1.ª parte, o Benfica mostrou que de cabecinha fresca é melhor que o PSV. E só de cabecinha fresca vai evitar sofrer daqui a uma semana, nos Países Baixos.