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Rúben, o tomba-gigantes

Primeiro foi Sporting e FC Porto, agora o Benfica. Não há grande que não caia na máquina de Rúben Amorim, que ainda nem há dois meses é treinador na 1.ª divisão. Vitória na Luz por um 1-0 de um Sp. Braga que é uma equipa adulta, que soube manter o controlo de si mesmo mesmo quando não tinha o controlo do jogo. E o Benfica com o FC Porto à perna

Lídia Paralta Gomes

PATRICIA DE MELO MOREIRA/Getty

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A internet tem esta coisa do imediato e as prerrogativas do online dizem que esta crónica deve chegar em tempo razoável ao leitor. Logo a seguir ao apito final seria o ideal, a vida em direto assim o pede, mas vamos colocar assim até a um máximo de 30 minutos depois do final do jogo como limite.

Mas se os tempos fossem outros e eu tivesse horas ou até dias para escrever este texto, um pouco como naquela era longínqua em que os jornais desportivos saíam só um par de vezes durante a semana, talvez pudesse pegar numa qualquer Enciclopédia Lello do futebol nacional e procurar, de lupa em riste, ao máximo pormenor, se em todas estas décadas de futebol jogado neste retângulo houve alguma equipa ou algum treinador que tenha ganho cinco jogos aos três grandes na mesma época.

Como eu sou da era da internet, não poderei dar essa informação com a exatidão jornalística que se pede, mas parece-me feito tão altamente improvável, que vou assumir que não, não houve.

(Se não for verdade, peço desde já perdão, mas acho que o leitor compreende este meu salto de fé)

Pois bem, Rúben Amorim, treinador do Sp. Braga desde os últimos suspiros de 2019, vai continuando a fazer a sua muito particular pega de caras a este 2020, ano que ainda nem dois meses completos leva e em que o treinador para muitos considerado incapaz de treinar, por não ter um papel qualquer, enfim, conta com o seguinte pecúlio: 100% de vitórias frente a FC Porto, Sporting e Benfica (aos dois primeiros, duas vezes, até) e, pelo meio, uma Taça da Liga.

Not bad, not bad (o leitor também me perdoa o estrangeiro, não perdoa?)

Este sábado, na Luz, o Sp. Braga não só ganhou mais uma vez a um grande como pode ter ainda provocado o caos da incerteza no campeonato: é que com esta 2.ª derrota consecutiva, o Benfica corre o risco de, no espaço de uma semana, passar de uma vantagem de 7 pontos para apenas 1, caso o FC Porto vença o V. Guimarães daqui a umas horas.

PATRICIA DE MELO MOREIRA/Getty

O Sp. Braga, diga-se, ganha aos grandes porque joga como os grandes. Porque chegou à Luz e controlou os primeiros minutos, com bola, muita pressão sem ela. Porque quando deixou de ter o controlo do jogo nunca perdeu verdadeiramente o controlo de si mesmo, como qualquer equipa já adulta. E também ganhou na Luz porque o Benfica até tem ideias, mas está sem soluções e a 2.ª parte foi o espelho disso mesmo, ainda que também se possa queixar da falta de eficácia de Vinícius e Rafa ou do eclipsar de Pizzi nas últimas semanas.

Foi portanto um bom espectáculo na Luz, não que tenha sido sempre bem jogado, mas porque foi sempre competitivo e intenso, às vezes até duro, porque quando duas equipas querem vencer, a guerra pode ser sanguinária. Depois de 45 minutos ondulantes, em que, noves fora, reinou o equilíbrio, o Sp. Braga marcou mesmo no fim da 1.ª parte, num canto que Palhinha transformou, de cabeça, em golo. Na 2.ª parte esperava-se um Benfica em busca do tempo perdido: Vinícius ainda rematou ao poste aos 49’, Rafa passou quando devia ter rematado aos 59’, Pizzi fez gincana aos 68’ por entre os defesas, mas não passou por Matheus. Mas o Sp. Braga nunca perdeu a calma e a solidez perante a blitz encarnada, à espera do esvaziar de ideias do Benfica, que apareceu lá mais para os últimos 15 minutos, quando Bruno Lage lançou a cartada dos desesperados: avançados lá para dentro.

Curiosamente (ou talvez não, se é que me entendem) foi com três avançados em campo que o Benfica foi mais inofensivo. O Sp. Braga, equipa adulta treinada por um treinador mais novo que uns quantos jogadores da liga, aguentou bem, como um pai que pacientemente aguenta que um filho corra, esbraceje e esbanje toda a energia até cair de cansaço no sofá. E aí, em transição, quase aumentava os números da vitória - Vlachodimos foi mesmo um dos melhores do Benfica.

E com isto, a estrelinha de Rúben, o tomba-gigantes, já não é só estrelinha. É algo que se calhar nem na Enciclopédia Lello do futebol nacional podemos encontrar.