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“Posso não ter uma lesão na perna, mas posso ter a ‘cabeça’ lesionada”:Patrícia Mamona e Kika Nazareth falaram de saúde mental na Web Summit

Patrícia Mamona e Kika Nazareth estiveram na Web Summit para falarem sobre a saúde mental no desporto. Deram a sua opinião pessoal sobre o tema à Tribuna Expresso

Rita Coelho

JOSE SENA GOULÃO/LUSA

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No segundo dia de Web Summit 2022, as atletas Patrícia Mamona e Marta Pen, e a jogadora de futebol Francisca Nazareth, marcaram presença num painel em que se falou da importância da saúde mental no desporto.

Após cerca de 20 minutos em cima do palco, Patrícia e Kika falaram com a Tribuna Expresso sobre a necessidade crescente de discutir o tema. “É muito importante, pois só assim vamos conseguir evoluir no desporto, não só nacional, mas a nível mundial. E também é uma forma de melhorar a qualidade de vida, não só dos atletas de alta competição, mas das pessoas em geral”, disse Patrícia Mamona, assumindo que “não consigo fazer algo técnico, muito específico, se não estiver focada. E para isso tenho que estar completamente livre de todas as emoções negativas, tenho que estar bem mentalmente. Se não estiver focada e emocionalmente estável, posso obviamente afetar o meu corpo de uma forma negativa e até ter um acidente”.

Relativamente à medalha de prata nos Jogos Olímpicos de Tóquio, em 2020, assumiu, no entanto, que essa é uma pressão que pode ser positiva, “porque é um sentido de responsabilidade, dá-me ali um boost especial para fazer as coisas não só por mim, mas por aquilo que represento”. A triplista destacou ainda a inspiração que ouvir falar sobre o tema pode ter nos mais novos “Aquele atleta pequenino que começou a treinar e vai para competição e está nervoso, começa a perceber que até o atleta olímpico que ganhou medalhas passa pelo mesmo processo”.

Já Kika Nazareth referiu o quão importante é não separar a saúde mental da física. “Não são só as nossas pernas que têm de estar bem, é um corpo. Posso não ter uma lesão na perna, mas posso ter a cabeça lesionada” destacando a importância de haver pessoas com notoriedade, como a ginasta Simone Biles, a falar sobre o assunto abertamente. “É bom ter esse tipo de pessoas a mostrarem-se e a fazerem perceber que somos uns privilegiados, mas nem tudo corre sempre como devia correr porque somos seres humanos”.

Como desportistas de alta competição, ambas assumiram à Tribuna Expresso que haver alguma pressão sobre a sua performance “é normal, muita vem do próprio atleta, vem das pessoas que estão mais perto, do treinador”, referiu Mamona. “Mas, acima de tudo, acho que temos que ter a consciência que somos humanos e todos temos uma parte emocional que tem que ser trabalhada, mas que não está sempre a 100% nos momentos chave.” No entanto, a futebolista acha importante relembrar: “Eu sou a Kika, mas sou a Francisca também, e antes de ser Kika, antes de ser jogadora, sou pessoa, é normal falhar seja na vida, seja em campo”.

JOSE SENA GOULAO

Se as equipas técnicas das várias modalidades em Portugal estão prontas para lidar com a saúde mental, a campeã olímpica pensa que sim, mas “não sabem como fazer. Estamos preparados, agora temos é de ser ativos e fazer com que isto seja uma realidade”. Kika Nazareth acrescentou ainda que o apoio mental não é apenas necessário “para coisas más, até pode ser por coisas boas”, como lidar com os êxitos alcançados.

Em relação às camadas mais jovens, a jogadora de futebol não acha que deva haver muita preocupação. “Claro que a saúde mental é importante em todos os aspetos, mas os miúdos de hoje em dia, com 10, 12, 13 anos, claro que tem preocupações, têm direito a tê-las, mas tem é de se divertir, de aproveitar sem obrigações, sem pressões. Foi assim que cheguei ao patamar onde estou”. Ainda assim, Kika considera que “se começar a haver uma pressão extra, aí, sim, é preciso haver um apoio constante e consistente na formação.”

A sétima edição da Web Summit decorre até esta sexta-feira, em Lisboa, e contou já com mais de 70 mil participantes para discutir temas como desporto, saúde e tecnologia.