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Nélson Monte fugiu da Ucrânia para Trás-os-Montes e não esquece o país em guerra: “Só um povo muito campeão é capaz de resistir a tudo isto”

O defesa central, hoje no Desportivo de Chaves após uma breve passagem pelo Dnipro, pelo qual fez nove jogos, revela “ter deixado” na Ucrânia “boas amizades” e que hoje acolhe “uma família ucraniana”, em Portugal: “uma senhora que trabalhava no clube e as suas duas filhas gémeas”

Lusa

Gualter Fatia/Getty

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Nélson Monte, futebolista do Desportivo de Chaves, considera que a retoma do campeonato ucraniano comprova a “resiliência do povo”, uma das maiores “aprendizagens” que o jogador retira da passagem pelo país, onde representou o Dnipro.

“Fiquei muito contente pelos meus colegas, mas, principalmente, pelas pessoas. Como o presidente [Volodymyr Zelensky] falou, o povo ucraniano precisava de uma distração e o futebol é uma modalidade de que toda a gente gosta. Acaba por ser uma fonte de distração neste momento, face à situação em que o país está”, frisou Nélson Monte, em entrevista à agência Lusa, a propósito da retoma da competição na Ucrânia.

A edição 2022/23 do campeonato ucraniano começou na semana passada, seis meses depois de as competições terem sido interrompidas, face à invasão russa. Contudo, os jogos foram retomados sem público nas bancadas dos estádios.

Para o defesa central, de 27 anos, o recomeço é, também, mais uma prova da “resiliência deste povo”, sendo “uma característica” que lhe reconhece pelo facto de “resistir ao que está a resistir durante todo este tempo”.

“Só um povo muito campeão é capaz de resistir a tudo o que está a acontecer. É uma prova de como não vão desistir. Espero que isto acabe e que a Ucrânia leve a melhor”, frisou Nélson Monte.

Apesar de estar afastado do clube ucraniano há já seis meses, com o contrato com o Dnipro “suspenso pela FIFA”, o jogador revelou à Lusa que “houve a possibilidade de regressar quando foi decidido que o campeonato ia ser retomado”.

“As pessoas do clube falaram comigo e tiveram uma abertura espetacular para perceber qual é que seria a minha vontade, mas decidi não regressar enquanto esta situação se mantiver. Neste momento, tenho este ano de contrato com o Desportivo de Chaves e estou aqui para atingir os meus objetivos e os objetivos do clube”, vincou.

Embora esteja “de corpo e alma” no plantel transmontano, mantém-se a par do que se vai passando na Ucrânia e fala “regularmente” com os antigos colegas e com treinador Igor Jovicevic, atualmente a comandar o plantel do Shakhtar Donetsk, tendo criado uma “ligação especial” com o país e, sobretudo, com o seu povo.

“Além de ter deixado lá boas amizades, acolhi uma família ucraniana aqui, em Portugal, uma senhora que trabalhava no clube e as suas duas filhas gémeas. Através delas, acabo por ter bastantes informações sobre a situação do país, praticamente todos os dias”, confessou Nélson Monte.

A este propósito, o jogador revelou que a passagem pela Ucrânia o “marcou” e que “a resiliência” foi uma das suas maiores “aprendizagens”.

“Há muita gente que tem uma ideia errada do que é a Ucrânia. Só quem lá esteve percebe o que estou a dizer. Tanto eu como a minha família estávamos a adorar estar lá. Foi uma experiência espetacular e é uma ligação que irei manter, principalmente com o povo ucraniano”, concluiu.

Nélson Monte está de volta à I Liga portuguesa de futebol, ao serviço do Desportivo de Chaves, após uma passagem pelo Almería, da II Liga espanhola, em consequência da suspensão das competições oficiais de futebol na Ucrânia devido à invasão pela Federação Russa em 24 de fevereiro.

À data, o central vestia as cores do Dnipro, clube que ocupava o terceiro lugar da tabela da Liga ucraniana, competição que foi retomada em 23 de setembro, dia que antecedeu a comemoração do Dia da Independência da Ucrânia, data que assinalou os 31 anos da separação da União Soviética, precisamente seis meses depois do início da incursão militar da Rússia.