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O que muda nos desportos de pavilhão, a testagem quinzenal de atletas e a presença de público: o que dizem as normas da DGS e as federações?

A maior disseminação do vírus, através da variante ómicron, levou a uma atualização das normas e recomendações por parte da Direção-Geral da Saúde e federações. A Tribuna Expresso foi ouvir dirigentes e pessoas ligadas aos desportos de pavilhão, nomeadamente de andebol, basquetebol e voleibol

Hugo Tavares da Silva

JOHANNES EISELE

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As regras para enfrentar e fintar os efeitos da pandemia de covid-19 vão mudando como mudam as variantes. Mediante a ciência, números de casos, hospitalizações e mortes vai sendo afinada a torneira da normalidade. Há resoluções dos Conselhos de Ministros, há normas da Direção-Geral da Saúde (DGS) e depois há, no fundo da escadinha, os comunicados de federações, associações e clubes. Para não falar na chuva de opiniões de especialistas. Por vezes, nesse processo que se assemelha ao jogo do telefone, a mensagem vai perdendo ou ganhando clareza.

A Tribuna Expresso foi ouvir e saber o que mudou e está a ser feito nos desportos de pavilhão, nomeadamente no andebol, basquetebol e voleibol. Na última atualização da norma 036 da DGS, publicada a 28 de dezembro, podia ler-se o seguinte: “É fortemente recomendado que os clubes e as federações promovam a realização de testes laboratoriais para SARS-CoV2 aos praticantes das modalidades desportivas, de acordo com as categorias de risco das diferentes modalidades, disciplinas ou vertentes das modalidades desportivas, da situação epidemiológica a nível regional e local”.

As federações dos desportos mencionados têm abordagens diferentes a esta temática da testagem. Se no basquetebol e voleibol se faz referência a testagem quinzenal, sendo que no segundo caso poderá resultar em sanção a ausência de teste, no andebol pede-se uma testagem semanal mas com caráter mais preventivo. A ideia é aproveitar-se os testes gratuitos disponíveis nas farmácias e laboratórios, explicam, mas esta rede não está espalhada por todo o país, o que representará custos para as famílias ou para os clubes. Ou, quem sabe, afastamento temporário da prática desportiva.

Esta questão da testagem, que aponta apenas a jovens a partir dos 12 anos, trouxe algumas hesitações e preocupações para famílias e entidades desportivas. A Tribuna Expresso teve acesso à reação de um clube no seguimento do comunicado da federação de basquetebol, que se queixa primeiramente de não haver no seu concelho “uma única farmácia” que esteja inserida no programa de testes gratuitos anunciado recentemente. A solução, pode ler-se, passa pela marcação de testes cujos custos sairão dos cofres do clube, uma situação insustentável já que teriam de ser feitos cerca de 100 testes num mês.

“O que estamos a fazer, e temos vindo a fazer desde o início da pandemia, é seguir de forma escrupulosa aquilo que são as normas da DGS”, explica Vicente Araújo, presidente da Federação Portuguesa de Voleibol, que admite “alguma sanção quanto ao não cumprimento do que está no regulamento”.

Araújo considera “razoáveis” os testes de 15 em 15 dias numa altura em que a variante ómicron é predominante e aparentemente muito mais contagiosa e transmitida de maneira mais célere. Questionado sobre se está certo de que toda a gente terá acesso aos testes gratuitos, explica: “Julgo que, com marcações em farmácias, se consegue resolver o assunto. Aliás, o desporto e os praticantes estão localizados onde há mais população, seja no eixo Setúbal, Lisboa, Leiria, Santarém... há com certeza pontos onde se fazem testes gratuitos. Porto, Braga, Viana do Castelo, exatamente a mesma coisa. Nos locais com menos população também há pontos onde se fazem testes de forma gratuita”.

João Saudade, coordenador geral do Lusófona Voleibol, celebra o facto de o desporto não parar. “Tudo o que sejam medidas que estejam a favor ou que sejam positivas para a saúde pública são importantes para todos nós, e medidas que não parem o desporto são ainda mais importantes. Sinceramente, a maior preocupação dos clubes e de todos nós é se alguma das medidas volta a colocar atletas em casa”, reconhece, apontando para as centenas de milhares de desistências entre praticantes ocorridas em 2020. “Se isto ocorre uma terceira vez, é dramático em termos de saúde pública geral, não é só para o desporto.”

C. Morgan Engel

A testagem quinzenal parece-lhe uma medida adequada. No entanto, consente: “O nosso clube tem uma estrutura média, conseguimos fazer testes com parcerias. A autarquia chegou a disponibilizar testagem, a federação também. Se não fosse assim, era impossível. Nenhum clube com a nossa dimensão tem a capacidade financeira para fazer testes. Era impossível, impossível. Estou de acordo com as medidas, vejo dificuldades na organização se essas mesmas medidas não forem financiadas”.

Algumas pessoas que a Tribuna Expresso ouviu mencionam “confusão”, “desporto da caça à borboleta” e até "atualizações que apagam normas e orientações anteriores”, visando a comunicação de Governo e autoridades de saúde. Explicam-se métodos, protocolos, desabafam-se reticências e admitem-se até preocupações quanto à desvirtuação das competições. Há até clubes que, devido às novas normas para espectadores (AQUI), admitem jogar à porta fechada para escapar a alguns constrangimentos.

O diretor de competições da Federação Portuguesa de Basquetebol, José Pinto Alberto, revela que na segunda-feira será publicado um novo comunicado daquela entidade. Sobre a recomendação de testagem para jovens com mais de 12 anos de duas em duas semanas, a ideia é, “em princípio”, mantê-la. “Isso faz parte da orientação da DGS, que remete para as federações. Estamos num período complicado de grande difusão do vírus, é uma coisa clara e não há dúvidas. É remetido para as federações o dever de serem estipuladas formas de os participantes fazerem testes, até para que os atletas se protejam a eles próprios e às famílias.” No fundo, em cima da mesa está a saúde pública e a ideia de as competições não pararem, um flagelo que assola clubes e entidades desportivas desde o primeiro confinamento. Afinal, quando desaparecem praticantes, desaparecem com eles as mensalidades que permitem a uma grande fatias dos clubes sobreviverem.

A federação de basquetebol não terá uma postura vigilante e fiscalizadora quanto aos testes, nem é isso, aliás, que se pretende, garante José Pinto Alberto. “Os clubes devem procurar fazê-lo. Se não conseguirem aqui ou ali, conseguirão depois. Deve ser essa a atitude como cidadão. Não devemos fazer as coisas só porque temos o polícia atrás de nós.” E se aparecer um ou uma jovem sem comprovativo de teste quinzenal, é afastado/a? “Não! Nem de longe nem de perto. Se alguém me telefonar a perguntar, digo a mesma resposta. Quem não está vacinado é que tem de ter outros cuidados.”

Caiu a aleatoriedade da testagem

Paulo Sá, diretor técnico e responsável pela Unidade de Saúde e Rendimento da Federação de Andebol de Portugal, resume o que mudou: “A DGS, nas normas anteriores, fazia uma recomendação de testagem aleatória. Agora tirou essa aleatoriedade e faz essa recomendação de testagem periódica, mas não deixa de ser uma recomendação. É o que estamos a fazer aos clubes: a recomendar. As alterações ao nível da DGS não têm um impacto muito grande no que estamos a fazer e a viver na prática”

E, explicando porque a situação está facilitada para esta modalidade, acrescenta: “Quase não temos competições até meados de janeiro porque a selecção A está a preparar-se para o Campeonato da Europa. Nos fins de semana de 1-2 e 8-9 de janeiro temos os campeonatos nacionais suspensos, já estava definido previamente porque é a nossa semana da formação, por isso nunca tivemos jogos marcados para essa semana. Há alguma competição a nível regional, mas é residual”. Os clubes, alerta o diretor técnico nacional, podem alterar as datas dos jogos ou adiar uma partida caso estejam de acordo.

De resto, o protocolo mantém-se. Cada clube, através do responsável pela pasta referente à crise sanitária, tem uma listagem completa de quem não está vacinado e foi testado, em todos os jogos, explica ainda Paulo Sá. “Garantimos que, antes de cada competição, quem não tiver o certificado digital (vacinação ou recuperação), tem de fazer testagem nas 48 ou 72 horas anteriores, em função do tipo de teste. Fazemos esse controlo através de uma declaração que fica na propriedade do clube, mas que os árbitros ou delegado ao jogo podem solicitar ou até a federação, mais tarde, pode vir a solicitar o seu envio. É uma situação de controlo muito ligeiro, é quase preventivo.”

O PONTO EM COMUM: AS ESCOLAS

Voltando à queixa do clube de basquetebol de uma zona remota do território nacional, mencionada acima, levanta-se outra questão, que tem sido um debate transversal aos clubes e modalidades durante a pandemia: os mesmos miúdos que têm constrangimentos e regras para estar num recinto desportivo estão depois juntos nas escolas. As autoridades de saúde consideram que há um risco acrescido na prática do desporto, pelo contacto e ajuntamento em espaços fechados e pequenos, mas também por misturar terras, cidades e regiões distintas, o que permite acelerar a transmissão numa área mais vasta.

©Roland Dan

João Saudade, insistindo que os testes periódicos são importantes, mencionara o mesmo na conversa com este jornal. “Sou professor numa escola pública, estão já a publicar que no regresso às aulas será importante a testagem nas duas primeiras semanas. Acho que era importante era na semana anterior, na primeira semana de janeiro, quando estão de férias, senão a covid entra na escola e isolam-se as turmas. As medidas no desporto são razoáveis, são as que permitem a manutenção da prática desportiva”, explica.

E, perante esse binómio prática desportiva-escola, continua: “O desporto, nesse aspeto, é sempre mais uma bandeira que está à frente. Não vejo com lógica. O desporto tem muito menos praticamente do que tem as escolas, há muitos mais alunos escolares do que praticantes. Essa medida devia ser abrangente para desporto de formação e a nível escolar. Não vejo a necessidade de existir grande diferença. Neste caso, acho que a testagem nas escolas devia ser de 15 em 15 dias, mas não faço gestão de finanças das organizações e percebo que testar o universo de um país, em termos escolares, é muito mais caro do que testar 500 mil praticantes de forma regular”.

Já José Pinto Alberto considera esta temática um “contrassenso”. “Não conseguimos perceber também, mas defendemos o nosso papel: devem fazer os testes. Para defesa própria, da família e do grupo de que fazem parte. Os atletas acima de 12 anos, ao estarem nos pavilhões e em contacto com os de outros escalões, podem facilmente ser transmissores num clube. Não se consegue, em muitos pavilhões e clubes, criar zonas completamente estanques. Pode tentar-se fazer isso com planos de contingência nos pavilhões, sabemos que não é possível na sua totalidade”, admite.

O público nos pavilhões

Finalmente, falta fazer uma referência aos espectadores. O Artigo 27.º da Resolução do Conselho de Ministros n.º 181-A/2021, publicada a 23 de dezembro, refere que, entre os dias 25 de dezembro de 2021 e 9 de janeiro de 2022, o acesso a eventos desportivos prevê a apresentação do Certificado Digital COVID da União Europeia, assim como o comprovativo de vacinação que ateste o esquema vacinal completo.

Por outro lado, em substituição do comprovativo de vacinação completa, pode apresentar-se um teste negativo, desde que de acordo com os requisitos previstos no artigo 4.º do Decreto -Lei n.º 54 -A/2021, de 25 de junho (AQUI).

A malha aperta, contudo, neste primeiro fim de semana do novo ano. “Durante o período de 25 de dezembro a 2 de janeiro”, pode ler-se ainda na resolução do Conselho de Ministros, “o acesso de espectadores a eventos desportivos depende ainda da realização de teste com resultado negativo". Esta norma não é aplicável ao acesso de espectadores a eventos desportivos de escalões de formação.