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A casa às costas

“O jogador romeno é vaidoso, acha-se muito bom. Depois dos treinos gostavam de meter-se no banho quente a beber cerveja”

Defesa direito do Moreirense, David Bruno, 30 anos, foi pai há menos de um mês e acredita que o melhor momento da sua carreira ainda está para chegar. Sobre a experiência na Roménia, onde teve ordenados em atraso e fracas condições de trabalho, confessa que se fosse hoje não repetia. Mas apesar de ambicionar ficar a jogar em Portugal, admite voltar ao estrangeiro. Sobre o futuro pós-futebol, a única certeza que tem é a de querer fazer as cinco cadeiras que lhe faltam para concluir a licenciatura em Economia

Alexandra Simões de Abreu

RUI DUARTE SILVA

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Quando chegou à Roménia, mais concretamente a Giurgiu, qual foi a primeira impressão?
Quando cheguei a situação do clube era um bocado engraçada, porque nós treinávamos numa cidade que se chama Ploiesti, onde eu vivia, e de onde era o clube inicialmente. Só que, com a entrada de um novo dono, que era de Giurgiu, construíram um novo estádio em Giurgiu que ficava a cerca de duas horas e meia do local onde treinávamos. Ou seja, só íamos a Giurgiu para o jogo. Bucareste fica entre Giurgiu e Ploiesti.

Gostou de viver na cidade de Ploiesti?
É uma realidade diferente. Bucareste é uma cidade mais recente, mesmo ao nível de infraestruturas, com prédios e empresas recentes, Ploiesti não, tem prédios mais antigos é uma cidade mais cinzenta. Mas aprendi a gostar, estive lá dois anos.

Foi sozinho?
A minha mulher também foi. As duas primeiras semanas foram complicadas para ela, porque é uma pessoa bastante ativa, gosta de comunicar, e quando chegamos a um novo país em que nada conhecemos, nem a língua, é difícil. Coisas simples, como ir a uma farmácia, a um supermercado, muitas vezes tornavam-se complicadas.

Como era o vosso nível de inglês?
Eu inglês desenrasco-me bem, ela já não tanto e isso também dificultou. E nem todas as pessoas na Roménia, principalmente em Ploiesti, falam inglês. Em Bucareste, como é uma cidade mais turística, as pessoas já estão mais instruídas e necessitam de falar inglês. Mas na nossa cidade nem toda a gente falava, o que tornava um pouco complicado as situações do dia a dia.

A Roménia e os romenos corresponderam à ideia que tinha?
Sinceramente, não. Em Portugal, sem querer entrar em questões de racismo ou descriminar, temos a ideia de que os romenos são os ciganos. Existe um pouco essa ideia pré-concebida, porque se calhar realmente os romenos que vêm para cá são os ciganos. Mas lá não há tantos assim. Claro que há pessoas da etnia cigana, como de outras raças, mas não é assim tão linear. Também tenho de realçar que ao nível de segurança senti-me bastante seguro na Roménia. Em nenhum momento tive qualquer preocupação ou senti-me intimidado com o que quer que seja nesse aspeto.

Como são os adeptos?
Como havia essa particularidade do clube ser de uma cidade e jogar noutra cidade um pouco distante, não tinha muitos adeptos, não havia muita massa associativa. De forma geral não senti, tirando um clube ou outro, grande aderência de adeptos mas também nesse ano foi quando surgiu o covid-19 e era impossível o público ir aos jogos.

David Bruno chegou ao Astra Giurgiu, da Roménia, em 2019/20

David Bruno chegou ao Astra Giurgiu, da Roménia, em 2019/20

D.R.

Quando tomou contacto com o futebol romeno, o que achou?
Senti grandes diferenças principalmente a nível tático. Penso que em Portugal, toda a gente reconhece isso, a nível tático temos um futebol bastante evoluído e temos treinadores com bastante sucesso a nível mundial. Lá não há tanta organização tática. É um futebol que não tem tanta qualidade, mas o mais engraçado é que também não é fácil jogar lá. É um pouco mais físico.

E as condições dos clubes, são boas?
Também deixam um pouco a desejar. Eu treinava no estádio antigo que já estava um bocado velho, prefiro nem falar da relva porque era raro estar bem tratada, as condições de treino eram fracas. Do estádio onde jogávamos não tenho nada a dizer, muito bom e umas condições espetaculares. Agora as de treino deixava um pouco a desejar.

Era o único português da equipa?
Quando cheguei, estava o Miguel Santos, guarda-redes que está agora no Trofense, mas passado uma semana ou duas ele acabou por ser emprestado a outra equipa. No meu segundo ano veio outro português, o Hugo Sousa, que tinha jogado comigo na formação do FC Porto e que era da minha geração.

Como era o ambiente no balneário, muito diferente do português?
Um pouco. Acho que o facto de eu ser estrangeiro e de não falar romeno não ajudou, sobretudo no primeiro ano. Como já falámos anteriormente, nunca fui um palhaço, dificultava um pouco eu estar no meio das brincadeiras, além de que a barreira linguística é sempre complicada de ultrapassar. Por isso estava mais com os estrangeiros, com os croatas que também lá estavam, mas é natural.

Algum jogador com quem tenha feito maior amizade na Roménia?
Ninguém os conhece [risos], mas ainda falo com o David Lazar que é guarda-redes e o Albert Stahl, que ficava muitas vezes comigo no quarto, nos estágios.

Com a mulher, os pais, irmã, cunhado e sobrinhos

Com a mulher, os pais, irmã, cunhado e sobrinhos

D.R.

Desses dois anos da Roménia, o que mais o marcou futebolisticamente falando?
O último ano em que incrivelmente acabamos por descer de divisão. No primeiro ano ficámos em 3º lugar, o que daria acesso às competições europeias, mas por questões financeiras não tivemos a licença da UEFA e não podemos competir, o que é triste porque conquistámos esse direito dentro do campo e por questões, não é extra futebol, mas questões diretivas e administrativas, fomos penalizados e não nos permitiu jogar nas competições europeias que era outro objetivo que eu tinha. Queria estar nessa montra europeia. E no segundo ano é inevitável falar da descida de divisão, foi uma época atípica com bastantes problemas.

Que problemas?
Acima de tudo as condições de trabalho eram as mesmas, não eram muito boas e depois sempre aquela questão dos problemas financeiros que o clube atravessou, o dono [Ioan Niculae] foi preso e acaba sempre por abalar o grupo.

Houve muitos ordenados em atraso?
Sempre houve. Antes de ir informei-me com colegas portugueses que lá tinham jogado, sabia haver esses atrasos, mas que acabavam sempre por pagar. Claro que quando descemos de divisão os problemas aumentam. Ainda por cima nesse ano fomos à final da taça e perdemos no prolongamento. No espaço de quatro, cinco dias descemos de divisão e perdemos a taça. Não é que a taça viesse apagar o campeonato que foi feito, mas acabou por ser tudo mau.

Numa época com quatro treinadores, para os jogadores a que é mais difícil adaptar-se quando chega um treinador novo?
Falando dos treinos, de intensidade e carga de treino, quer se queira, quer não, o corpo acaba por adaptar-se a uma certa rotina e quando há uma mudança de treinador, o corpo sofre com essa mudança, como é natural. Mas, por outro lado, quando há mudança normalmente é porque anteriormente as coisas não estavam bem e eu tento encarar essa mudança como algo positivo, quanto mais não seja para dar aquela chicotada psicológica.

Isso aconteceu sempre?
Nem sempre. O último treinador participou só em três jogos, portanto quase nem contou. Houve uma situação caricata. Era para vir um treinador, mas ele só aceitava vir para o clube se dessem melhores condições, materiais de trabalho, se os ordenados estivessem em dia. Queria ter as condições ideais para poder trabalhar. Nesse mês e meio em que ele esteve à espera que o clube concretizasse as suas exigências, treinávamos com o adjunto dele. Ou seja, o treinador principal nunca esteve connosco, mas a equipa técnica estava a trabalhar connosco. Foi uma situação inédita para mim. E o pior é que no fim desse mês e meio ele não chegou a entrar no clube e veio outro treinador.

Que outras situações caricatas viveu na Roménia dentro e fora do futebol?
Eles tinham um hábito estranho para mim, após o treino bebiam umas cervejas na sala de banhos quentes. No final dos treinos gostavam de ir para dentro da água quentinha e beber uma cerveja [risos].

Alinhava?
Eu ia para a beira deles, gostava de estar no meio deles na conversa, mas não bebia cerveja porque nunca fui muito adepto.

Depois da Roménia, David Bruno jogou no Estoril-Praia uma época (2021/22)

Depois da Roménia, David Bruno jogou no Estoril-Praia uma época (2021/22)

D.R.

Em termos culturais, o que mais o fascinou e pelo contrário, do que não gostou?
O que estranhei mais foi a mentalidade de bastantes jogadores romenos de acharem-se jogadores muito bons. Não que não tivessem qualidade, mas eram jogadores que não tinham provado nada, o futebol romeno não é um futebol de elite, está se calhar no 2º ou 3º nível do futebol mundial e muitos já se achavam grandes jogadores, sem nunca terem feito grande coisa. Fazia-me confusão o ego deles.

São muito vaidosos?
Sim. Mesmo o cidadão romeno gosta de roupas de marca, de carros bons, gosta de se mostrar. Não quer dizer que sejam piores ou melhores pessoas por causa disso, não é isso que estou a julgar, mas têm essa particularidade. Outra coisa muito diferente era quando íamos de estágio, no jantar anterior ao jogo, davam um copo de vinho aos jogadores. Só aos que queriam, claro. Nunca tinha visto e achei peculiar.

Bebia o seu copinho de vinho?
Por acaso também nunca fui de beber vinho. Mas há uma coisa de que gostei muito na Roménia, o queijo panado. Comia bastantes vezes.

O que fazia nos tempos livres?
Eu apanhei ano e meio de covid-19. Ou seja, não houve grande possibilidade de explorar o país nem de grandes convívios. Estivemos dois meses fechados em casa e, como em Portugal, só estavam abertas as lojas de bens essenciais.

O que fez nesses dois meses em casa para se distrair?
Muita Netflix [risos]. Eu, que não era adepto, comecei a ver muitas séries e filmes.

Alguma série em particular de que tenha gostado mais?
Vi tantas séries... A Casa de Papel foi toda vista quase num dia. Tentava manter a forma em casa, com alguns exercícios. A minha mulher também gosta de fazer desporto e participava. Tínhamos um parque ao lado de casa e apesar de não ser permitido, às vezes à noite ou de manhã bem cedo ia fazer uma corridinha nesse parque para manter a forma. Não dava para muito mais. Quando se deu o confinamento a minha mulher teve de ser operada de urgência a um quisto no ovário. Ela esteve cinco dias no hospital em que não eram permitidas visitas. Sem falar romeno e quase nada de inglês, foi complicado. E eu sem poder ajudar muito. Estou bastante agradecido ao tradutor do meu clube porque foi ele que fez a ponte com os médicos.

Foi fácil aprender romeno?
Nunca tive aulas, mas no dia a dia com os meus colegas, sobretudo aqueles dois que já nomeei e que sabiam inglês, deu para aprender porque há muitas palavras que percebemos. No segundo ano já conseguia entender as palestras perfeitamente. O falar é sempre mais difícil.

David Bruno (à esquerda) durante um jogo do Estoril-Praia, com o SC Braga

David Bruno (à esquerda) durante um jogo do Estoril-Praia, com o SC Braga

Gualter Fatia

Quanto tempo esteve sem receber ordenado?
O máximo foram três ou quatro meses.

Nesse período teve de recorrer às suas economias?
Sempre geri bem as economias, nunca fui de grandes extravagâncias ou de gastar dinheiro à toa. No futebol, por ser uma profissão de curta duração, ganhamos acima da média, o que nos permite estar um, dois meses sem receber, sem passar grandes dificuldades, pelo menos no tipo de vida que eu levo.

O ambiente nos jogos era muito diferente de Portugal?
Em Portugal, tirando as equipas grandes, mais uma ou duas, não temos muitos adeptos nos estádios, é uma realidade. Na Roménia, tirando três ou quatro equipas também era isso que se notava. Havia bons ambientes, sim, mas também havia jogos em que nem mil pessoas estavam.

Isso desmotivava-o?
Prefiro jogar com muita gente no estádio, é outra adrenalina, outra motivação. Mas no meu clube não havia grande interação com os adeptos.

Quando o clube desceu de divisão, sentiu que o seu sonho tinha acabado?
Não, mas senti que seria difícil num regresso a Portugal vir para a I Liga. O facto de estar num campeonato inferior já dificultava, tinha noção disso quando fui para a Roménia, mas descer num campeonato daqueles ainda pior.

Ainda assim conseguiu vir para a I Liga, para o Estoril Praia. Como aconteceu?
Tive abordagens de alguns clubes, mas o Estoril Praia foi quem apresentou uma proposta mais concreta. E não hesitei.

Ficou a viver onde?
No Estoril, vivia mesmo ao lado do estádio, ia a pé para o treino. Adorámos viver no Estoril. Não ia muitas vezes a Lisboa, ficava mais naquela zona perto do Estoril, Cascais, Carcavelos, na zona da praia. Tanto eu como a minha mulher adorámos viver lá. Foi um ano a nível pessoal bastante positivo. É nesse ano que ela engravida. A vontade de vir para Portugal também já foi com essa ideia, de tentar engravidar. Era o nosso primeiro filho, neste caso filha, que já nasceu e queríamos que ela fosse acompanhada cá.

Como foi regressar ao futebol português?
É outra qualidade, outra competitividade e confesso que vinha em baixo de forma. Quem olhar para o meu histórico nessa época dá para perceber isso. A intensidade de treinos era outra e tive um pouco de dificuldade em entrar no ritmo. Ainda por cima vim na segunda semana de treinos, comecei atrasado, e vinha de uma realidade completamente diferente. Foi difícil apanhar o comboio. Não tive uma grande pré-época, depois no campeonato não comecei a titular naturalmente e sem ter jogos amigáveis para me dar alguma condição física foi difícil. Só comecei a jogar com mais regularidade na segunda volta.

Na semana em que foi entrevistado para A Casa às Costas

Na semana em que foi entrevistado para A Casa às Costas

RUI DUARTE SILVA

Assinou só por um ano. No final da época o Estoril Praia não quis renovar?
Sim, o clube não quis ficar comigo. Havia também aquela indecisão do treinador que acabou por não ficar. E seguimos caminhos diferentes.

Teve pena?
Tive porque gostei muito de viver no Estoril e gostei muito do clube, fiquei muito surpreendido pela positiva com as condições que encontrei. Tanto condições de trabalho como a estrutura, não tenho nada a apontar, dão todas as condições para os jogadores trabalharem e evoluírem e tem-se visto nos últimos anos do Estoril Praia. Campeão de II Liga, o ano passado ficamos em 9º lugar, este ano voltam a começar bem a temporada, com jogadores vendidos para bons clubes e isso deve-se ao trabalho que o clube desenvolve, às condições que dá aos jogadores. Apesar de ser um clube que ainda não tem uma massa adepta muito grande, é um clube familiar e gostei bastante.

Que propostas surgiram depois dessa época no Estoril?
As abordagens que iam aparecendo eram de II Liga. Inicialmente ainda estava à espera que surgisse uma coisa ou outra da I Liga, mas as coisas não foram avançando nesse sentido. Entretanto, surgiu a hipótese do Moreirense e quis vir, porque na minha intimidade, com a minha mulher já dizia que se tivesse de ir para um clube de II Liga, se calhar o Moreirense era o clube mais apetecível.

Porquê?
Porque é um clube que vem de oito ou nove anos na I Liga, seria talvez o clube com as melhores condições e que vai apostar para subir de divisão. Foi assim que pensei.

Encontrou isso no clube? Essa ambição?
Sem dúvida. Para já, está a correr muito bem.

Que tal o Paulo Alves como treinador?
Estou a gostar de trabalhar com ele. Não o conhecia. É um treinador bastante tranquilo, dá liberdade com responsabilidade e para já está a fazer um excelente trabalho.

Foi viver para Guimarães?
Não, fiquei em Vizela, por uma questão de oferta de mercado. Eu tinha de arrendar uma casa e dentro do que vi - cheguei a ver casas em Guimarães -, optamos por vir para aqui porque gostamos mais da zona envolvente, onde dá para passear com a bebé e também estou mais perto do treino.

David Bruno (2º em baixo à esquerda) no 11 do Moreirense que jogou com o Belenenses SAD em agosto deste ano

David Bruno (2º em baixo à esquerda) no 11 do Moreirense que jogou com o Belenenses SAD em agosto deste ano

Gualter Fatia

A bebé nasceu quando?
A Leonor nasceu a 9 de agosto. Ainda não tem um mês. Assisti ao parto.

Mudou algo dentro de si?
Muda sempre, porque é outra responsabilidade. Agora temos uma pessoa que depende de nós.

Pensa ter mais filhos?
Idealizamos ter dois filhos, mas se ficarmos por aqui também não há problema. Vamos ver como corre.

Assinou por quanto tempo com o Moreirense?
Um ano também.

Gostava de continuar?
Tudo depende de como decorre a época a nível coletivo e individual. Mas claro que com uma bebé queremos ter alguma estabilidade, são muitos anos com mudanças de casa e de cidade e com uma criança gostávamos de ter alguma estabilidade. Mas, o que tiver de ser, será. Ainda falta muito até lá.

Considera a hipótese de ir para clubes e campeonatos mais longínquos, mas onde possa ganhar mais dinheiro?
Considero. Principalmente entre o 1º e o 3º ano de vida da Leonor, porque a partir dos três, quatro anos começa a escola e gostávamos que ela fizesse o percurso escolar todo direitinho em Portugal.

Se for jogar para fora, elas vão consigo?
Sim. Não consigo estar longe. Não consigo estar longe da minha mulher e agora das duas ainda mais difícil [risos].

Tem uma meta para deixar de jogar ou vai jogar até o corpo deixar e os contratos aparecerem?
Tenho 30 anos, acho que ainda tenho alguns anos pela frente como jogador. Sempre me cuidei bastante. Não tenho metas, porque acredito que ainda está longe, não penso muito no terminar do futebol.

Mas já sabe o que quer fazer depois?
Não. É algo que começo a pensar com a minha mulher. Naquilo que se poderá investir, ou abrir um negócio, ou outra coisa, porque vou ter de trabalhar, fazer algo pós-carreira. Tenho o curso para acabar também.

Não se vê a continuar ligado ao futebol?
Para ser treinador ainda não sinto esse bichinho. Empresário de futebol, talvez. Ou um cargo como diretor de equipa. Ainda estou a amadurecer a ideia, até porque sinto que ainda tenho alguns anos pela frente e quero aproveitar o futebol.

David e Marta com a filha recém-nascida Leonor

David e Marta com a filha recém-nascida Leonor

RUI DUARTE SILVA

Onde nota que o futebol português evoluiu mais nos últimos anos?
O futebol português está mais competitivo. Ainda recentemente o Rio Ave ganhou ao FC Porto, vemos essas equipas mais pequenas que conseguem bater-se com as equipas grandes de uma forma mais equilibrada.

Isso deve-se mais a quem ou a quê?
No fim, quem realmente está lá dentro são os jogadores e o treinador. Temos treinadores bastante qualificados, Portugal deve ser dos países com maior qualidade ao nível de treinadores e vemos jogadores cada vez melhores. Não é por acaso os resultados que as seleções jovens portuguesas têm tido. E nos seniores a mesma coisa, com jogadores a jogar nas melhores equipas do mundo.

Chegou a ser chamado à seleção?
Fiz o percurso nas seleções jovens, sub-18, sub-19, sub-20 e sub-21, mas à seleção A nunca fui. É o expoente máximo representar Portugal, o teu país, e apesar de ter sido a um nível de formação, estou muito orgulhoso disso.

Alguma pensou conseguir chegar à seleção A ou sempre teve os pés bem assentes na terra?
Esse sonho existe sempre, agora, sempre tive os pés assentes na terra. Não quer dizer que um jogador do Tondela, o nível mais elevado que tive, por assim dizer, não pudesse ir à seleção, porque no meu ano tive o Cláudio Ramos, que foi chamado à seleção, mas não é muito normal, é quase impossível o jogador do Tondela ir à seleção A. O passo é ir para um SC Braga e talvez aí começar a pensar nisso.

Essa é a sua maior frustração na carreira?
Não posso dizer que seja frustração, agora é um sonho que ficou por realizar. Não chegou a ser um objetivo, devido à realidade onde estava e tendo os pés assentes no chão.

David tem contrato com o Moreirense até final desta época

David tem contrato com o Moreirense até final desta época

Gualter Fatia

Onde ganhou mais dinheiro?
Na Roménia.

Investiu?
Para já não. Cheguei a comprar um terreno que já vendi. Mas tenho perspetivas de investir no mercado imobiliário, mas por enquanto tenho apenas alguns investimentos bancários.

Qual foi a maior extravagância que fez na vida?
Não encaro como extravagância, mas há dois anos fui de férias com a minha mulher para as Maldivas, que acabaram por ser umas férias de luxo em que gastei algum dinheiro, porque podia. Mas não considero extravagância.

Tem algum hóbi?
De momento mesmo que tivesse alguma coisa era impossível com a minha filha recém-nascida [risos]. Mas na altura da covid-19 criámos muito o hábito de ver Netflix. É algo que mantemos até há quase um mês [risos]. Volta e meia gosto de jogar Football Manager no computador. Não tenho Playstation.

Tem tatuagens?
Não.

É um homem de fé?
Não.

Superstições?
Também não.

Qual o adversário mais difícil com quem jogou?
Já joguei com jogadores melhores, mas não tive tanta dificuldade como com o Galeno, do FC Porto. Às vezes são as circunstâncias do jogo que permitem que eu se calhar estivesse mais exposto perante um jogador que é muito rápido e possante.

Segue ou pratica outros desportos além de futebol?
Não sigo muito. Gosto de às vezes ver futsal e hóquei em patins, mas não sou um fã. Joguei bastante vezes padel nas férias. O bichinho começou no Estoril Praia.

Qual o maior arrependimento que tem na carreira até agora?
Eu não olho com arrependimento para más decisões ou más escolhas que tenha feito porque tudo serve de aprendizagem. Encaro assim. Mas se calhar não teria ido para a Roménia. Tinha possibilidades de ter ficado em Portugal.

E o momento mais feliz?
Ainda está por acontecer. Durante formação conquistei bastantes títulos e sinto que me falta a nível profissional conquistar algo.

Acredita que é possível?
Sem dúvida. Esse momento ainda pode chegar.

Qual ou quais as maiores amizades que fez no futebol?
Diogo Ramos, que está no Fabril agora, o Pitt, que está no Mafra e mais recentemente o Dani Figueira, do Estoril Praia.

David Bruno escolheu viver em Vizela, onde gosta de passear com a mulher e a filha Leonor

David Bruno escolheu viver em Vizela, onde gosta de passear com a mulher e a filha Leonor

RUI DUARTE SILVA

Quem foi a pessoa que mais influenciou na carreira?
É inevitável falar do meu pai, porque ele sempre gostou bastante de futebol e a minha paixão se calhar surgiu um bocado daí. Foi a pessoa que sempre me acompanhou, principalmente durante a formação, e sempre me incentivou, sem criar pressão. Felizmente os meus pais não criaram pressão como vejo alguns pais hoje, que querem que os filhos sejam os novos Cristiano Ronaldo, às vezes até parece que querem mais que os miúdos sejam jogadores que os próprios miúdos.

Se pudesse escolher, qual o clube de sonho onde gostava de ter jogado?
No FC Porto. Na equipa principal, claro.

Qual o momento mais difícil na sua vida até hoje?
A morte do meu pai, quando estava na Roménia.

Tem ou teve alguma alcunha?
Tive uma, no Freamunde, que surgiu porque houve um jogo em que me lesionei nas costelas e fiquei o "Costelinha", porque eu era mais miúdo, franzino e como houve aquela situação…

O que pensa da introdução do VAR?
Tira um pouco a emoção do jogo, o objetivo do futebol é fazer o golo e hoje em dia quase nem podes festejar porque estás sempre à espera se o VAR vai marcar fora de jogo ou falta. Mas, por outro lado, a parte positiva, é que diminuiu os erros, que são naturais.

Tem algum talento escondido?
Tenho uma particularidade, sou uma pessoa reservada, mas dentro do seio familiar sou uma pessoa mais bem disposta e com a minha mulher às vezes gostamos de pôr música e dançar um bocadinho. Não é que seja um talento, mas a minha mulher diz que danço bem [risos].

O que gostam de ouvir e dançar?
É mais brasileiradas, kizombas [risos].

Se não fosse jogador de futebol, o que teria sido?
Nunca pensei em nenhuma segunda opção, por isso é difícil dizer. Mas sempre gostei dos números, de contas, se calhar teria algum emprego relacionado com isso, não sei.

Tem nenhuma história que possa contar para fechar a entrevista?
Posso contar uma sem dizer nomes. Houve um jogador que quando saiu do treino e foi para casa fez uma pequena contra-ordenação com o carro, que foi vista por um colega nosso. O colega que viu, tal como o que foi apanhado, era uma espécie de "palhacinho" do balneário e no dia seguinte foi dizer-lhe que a polícia o tinha visto a fazer a contra-ordenação e que se calhar ia ter problemas. Entretanto, conseguimos que um dos diretores se fizesse passar por polícia e ligou para o clube para falar com o tal jogador. Disse-lhe que ele teria de apresentar-se na Polícia porque tinha de se averiguar a situação. Só que isto foi num dia em que íamos de estágio. O jogador ficou preocupado, disse ter de ir para estágio e o "polícia" disse-lhe que se não fosse, teria de ser presente a tribunal. Durante a viagem para o estágio começámos a criar outras dinâmicas junto com os elementos da comunicação do clube.

O que fizeram?
Lançámos no nosso grupo de Whatsapp uma página fictícia de um jornal com uma notícia falsa, cujo título era que aquele jogador tinha sido apanhado em contramão [risos]. Ele ficou mais aflito e preocupado. O departamento de comunicação pediu-lhe, entretanto, para ele fazer um vídeo a pedir desculpa, para retratar-se. Ele fez isso tudo, todos sabiam o que se estava a passar menos ele. Jantámos e no final do estágio fomos para uma sala de reuniões, metemos o vídeo dele a retratar-se e acabamos por revelar a brincadeira [risos].