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A casa às costas

“Sem resultados só há um culpado: o treinador. Padrão instituído no futebol. Não me venham cá com histórias de projetos daqui e de acolá”

Luís Castro está no Catar, onde quer lutar pelo título e jogar a Liga dos Campeões Asiática no comando do Al-Duhail. Depois de 10 anos no FC Porto, passou pelo Rio Ave, GD Chaves e Vitória antes de ser campeão nacional da Ucrânia com o Shakthar Donetsk, clube que levou às meias-finais da Liga Europa. Há três anos a olhar o futebol português de fora, garante que somos muito falados e observados e diz que "devemos respeito pelos títulos conquistados e não só". Deixa no ar que o sucesso chegou-lhe tarde, não quer ouvir falar em reforma e, sobre futuro, confessa que gostava de treinar uma seleção

Alexandra Simões de Abreu

D.R.

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É chamado para assumir a equipa principal do FC Porto a três meses do final da época 2013/14. Quem fala consigo e qual foi a sua primeira reação?
O Paulo Fonseca não se sentia muito feliz naquele momento da carreira dele, as coisas não estavam a sair como ele gostaria e sentia-se que a qualquer momento o Paulo podia querer sair. Faltando muito pouco tempo para o final do campeonato, o FC Porto entendeu não recorrer a nenhum treinador fora do clube e o Antero e o senhor presidente falaram comigo.

Quando foi anunciada a saída do Paulo Fonseca ficou à espera que fossem ter consigo?
Não, não contava com nada. Tinha estado sete anos sem treinar, tinha voltado à equipa B porque o Antero insistiu muito que eu voltasse ao trabalho de campo já que conhecia todos os jogadores da equipa B e achava que faria sentido eu ser treinador na última fase de crescimento deles na academia. Se eu já não contava muito com isso, quanto mais treinar a equipa A passados sete meses de ter voltado ao treino, depois de sete anos parado.

Como é que o convenceram?
O convencimento é algo que cresce dentro de nós próprios. Ficou logo definido que era uma missão que ia cumprir durante três meses e que voltaria ao cargo que tinha assumido, de treinador da equipa B. Foi feito de forma muito limpa e clara. Para mim essa passagem pela equipa A do FC Porto é um flash. Eu não fui treinador do FC Porto equipa A, eu desempenhei uma missão na equipa A do FC Porto. Porque ser-se treinador é construir um plantel, é desenhar uma pré-época, recrutar os jogadores, desenhar o calendário dos jogos amigáveis e fazer a vida de treinador dentro da equipa, influenciar os departamentos que me envolvem; eu sou cliente, os departamentos são fornecedores, fornecem-me como eu quero. Desde quando? Desde que se inicia uma época. Porque chegar a meio e fazer com que os departamentos que forneciam de uma determinada forma, passem a fornecer de outra forma, há um conjunto de momentos de adaptabilidade que podem não ser conseguidos.

Quer dizer que não considera treinador de uma equipa quem entra a meio de uma época?
Considero treinador de uma equipa que entre a meio de uma época a partir do momento em que ele assuma por completo aquilo que são os destinos do clube nessa época e na seguinte. Na minha concessão um treinador na sua plenitude é alguém que pega na raiz e faz crescer a árvore até ao topo da sua copa. Não é alguém que chegue a meio e que assina por três ou quatro meses. A influência de um treinador a meio da época é muito reduzida, a não ser a nível mental. OK, para o mundo em geral aceito que consideram ser treinador da equipa, para mim enquanto pessoa eu não fui treinador, cumpri uma missão. Há uma coisa que para mim é bem clara, eu não tenho que afinar por aquilo que são os padrões da sociedade e por aquilo que ela adotou como certo.

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  • “Quando cheguei ao FC Porto a minha preocupação foi entrar sem fazer muito ruído e ser absorvido, porque eu não tinha a marca Porto”
    A casa às costas

    Enquanto espera pelo recomeço da competição no Catar, onde está a treinar o Al-Duhail, Luís Castro foi ao baú das memórias para nos contar como o futebol se tornou a sua profissão. Cedo percebeu que não era um talento com a bola nos pés e que, a vingar, seria pela via do treino. Depois de uma infância marcada por uma doença que lhe ameaçou a vida e pela precoce consciência política adquirida em plena Revolução de Abril, foi jogador, capitão e trabalhou como comercial. Foi a mulher quem o convenceu a tirar o nível III do curso de treinador que o levaria a entrar mais tarde no FC Porto, pela via da formação, antes de assumir uma missão especial à frente da equipa sénior. Com peripécias e pormenores inéditos, não perca a primeira parte desta entrevista - no domingo servimos o resto da história